
Recorto esse fragmento de número 28 do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. Na verdade, esta obra é uma reunião de fragmentos, escritos pelo poeta durante cerca de vinte anos de sua vida, através de um dos seus heterônimos, Bernardo Soares.
Os fragmentos de Fernando Pessoa compõem reflexões existenciais sobre a vida, os afetos, as relações humanas e a natureza. Neste que estou aqui destacando, senti-me convocada a pensar sobre como o mundo repleto de estímulos em que vivemos nos abala, reduzindo nossa capacidade de fruir a vida. Estaremos condenados a não sentir mais nada?
O fluxo interminável de tarefas diárias constitui uma queixa recorrente, especialmente entre as mulheres, propiciando frequentemente quadros de ansiedade, exaustão e depressão. Sabemos que é preciso parar e interromper as atividades quando for possivel; é preciso contemplar o céu, ler uma poesia, ouvir calmamente uma música ou simplesmente deitar em uma rede. Porém, a urgência para cumprir demandas que se impõem a todo o momento não permite descanso, mesmo promovendo tensão, cansaço e doenças.
Muitas vezes nós mesmas, tão acostumadas a executar o mais perfeitamente possível nossas funções e obrigações, criamos demandas, pois não aprendemos a relaxar, a abrir mão de cuidar dos outros e de tudo o que nos cerca. Podemos inclusive sentir algum vazio ou perda de controle quando delegamos gestão a outras pessoas, tendo em vista que nem sabemos ao certo o que fazer ou como fazer com algum tempo que possa restar disponível em nossa agenda.
Não creio ser difícil atestar que o modo de viver da sociedade contemporânea propõe um certo estado permanente de urgência como estilo de vida. Ou seja, espera-se que estejamos sempre atentas e atentos a tudo o que se passa, a todas as notícias, prestes a responder emergências sejam quais forem, de toda ordem. Espera-se e valoriza-se este modo de existir, que dizima nossa saúde e nossa capacidade de pensar, estudar, ler, se concentrar e sentir.
Faz-se necessário, portanto, rever. Resistir. Tentar re-existir. Que seja pela arte, que seja buscando ajuda, que seja gritando por socorro, que seja estagnando, impondo limites, interrompendo minimamente o processo insano de esvaziamento que nos assujeita.