Saúde mental e população LGBTQIAP+

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Apesar do contexto de reformulações conceituais e comportamentais que ocorre desde a metade do século XX, infelizmente a população LGBT ainda é violentada e perseguida pelo preconceito, pela discriminação e desinformação, algo que, além de ocasionar assassinatos, compromete sobremaneira a saúde mental desta população, se comparada às pessoas heterossexuais.

É necessário pensar a saúde mental de forma ampla e contextualizada, levando em conta fatores como a condição socioeconômica, as normas hegemônicas de gênero e sexualidade, a raça, a rede de relacionamentos e o modelo familiar. Enquanto minorias sexuais, as pessoas LGBTs estão mais expostas do que outras a determinados fatores estressores que causam sofrimento. Experiências e vivências de preconceito, discriminação, rejeição, bullying, perseguição podem levar ao isolamento social, ao pânico, à depressão e ao suicídio. 

A teoria de stress de minorias (Meyer, 20023, EUA) contribui para entender as razões desta diferença, na medida em que evidencia a condição de vulnerabilidade social que o estigma das identidades lésbicas, gays, bissexuais e transexuais impõe e determina. Nas palavras de Fernanda de Oliveira Paveltchuk e Juliane Callegaro Borsa, em artigo publicado pela PUC RJ, Revista SPAGESP (Sociedade de Psicoterapias Analíticas Grupais do Estado de São Paulo), 21(2), 41-54, denominado A Teoria do Stress de Minoria em Lésbicas, Gays e Bissexuais – http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-29702020000200004:

A Teoria do EM foi desenvolvida por Meyer (2003), nos Estados Unidos, no início dos anos 2000, com o objetivo de sistematizar as condições específicas vividas por pessoas LGB, e explicar de que modo tais condições impactariam em desfechos positivos e negativos de saúde mental neste grupo. A Teoria do EM propõe três tipos de estressores: 1) experiências de vitimização, caracterizada pelo preconceito, violência, rejeição e agressão relacionadas à orientação sexual; 2) homofobia internalizada, relacionada a ideias aversivas de uma pessoa LGB acerca de sua própria sexualidade); e 3) ocultação da orientação sexual, quando esconde sua identidade LGB de si e/ou de outros (Meyer, 2003). Trata-se de um dos modelos teóricos mais utilizados para explicar de que forma os processos de estigmatização podem estar relacionados aos desfechos negativos proeminentes na saúde mental de pessoas LGB.”

Os prejuízos nas áreas da vida são muitos, comprometidos pela condição de minoria: na família, no trabalho, na comunidade, na educação e na saúde física/mental. Ademais, é preciso levar em conta que o acesso aos serviços públicos e privados, de saúde e educação, são precários para a maioria da população LGBT, principalmente quando estas fazem parte de grupos pobres, situados nas periferias do Brasil, pertencentes à raça negra e do gênero feminino.

As pesquisas indicam altos níveis de depressão e tentativas de suicídio em pessoas LGBTs, mais do que em pessoas que performam as normas de gênero e sexualidade da sociedade. Não é difícil perceber o intenso sofrimento e as condições que o propiciam, trabalhando na área da saúde, seja privada ou pública.

A homofobia internalizada, o temor à rejeição, a tentativa de esconder ou mesmo disfarçar a orientação sexual para os familiares e amigos são resultados de uma sociedade perversa e normativa, que ainda produz subjetividades pautadas pela homogeneidade nos modos de ser e viver, não pela diversidade. Quando se trata de pessoas transgêneros, o contexto é frequentemente devastador.

No entanto, por outro lado, há fatores protetores que podem contribuir para uma significativa resiliência, resistência e bem-estar da população LGBT. O amparo e a compreensão familiar, a rede de apoio comunitária, que inclui diversas instituições, como escola, igreja, empresas, hospitais; os grupos de amizade e os grupos de expressão cultural, enfim, um vasto campo de relações que se articulam e podem promover novas subjetividades para a criação de uma sociedade mais justa e saudável.

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