Infância, alta performance e saúde mental

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O que é a infância? Como entender uma criança e com ela apreender o mundo?

No livro Pedagogia Profana, escrito pelo grande educador espanhol, filósofo e ensaísta Jorge Larrosa, somos apresentados ao conceito de “infância como um outro”, questionando os parâmetros normativos daquilo que é definido como infância na modernidade. Esta concepção transforma nossa visão de mundo, pois nos autoriza a aprender com as crianças o que não sabemos, o que nunca saberemos e nem deveríamos saber: o mistério da vida, o enigma do que significa existir e compartilhar a existência. 

A sociedade do desempenho, no entanto, não partilha desse conceito sobre a infância. Os valores estimulados pela concepção de rendimento e eficiência máxima, culto à competição, produtividade e eficácia sem limites destrói crianças e adultos, treinados para serem “empreendedores de si”, gerenciando o tempo, a vida e as relações humanas a partir de uma ótica na qual o que importa é sempre o sucesso. Naturalizada entre nós, esta lógica empreendedora neoliberal tem custo, faz vítimas e amplia o sofrimento psíquico.

É fato que nossa subjetividade já vem sendo constituída, há tempos, para aceitar e jamais questionar tal sistema de sociedade. Por isso, em geral, não nos assustamos quando observamos crianças chorando porque perderam um simples jogo na escola, ou porque tiraram uma nota um pouco mais baixa. A preocupação começa quando percebemos, porém, que a depressão é contínua, ou que o medo de ir à escola se transformou em fantasmas noite adentro, com bonecas falantes e cavalos assustadores voando pelo teto.

Pois bem, a alta performance exigida pela sociedade, incluindo todas as instituições – família, escola, mídia, religião, etc – está adoecendo nossas crianças e adolescentes, levando-as a níveis insuportáveis de sofrimento mental, explicitados em sintomas de depressão, ansiedade, perversão e até suicídio, principalmente nas classes médias e altas.

A norma principal transmitida pelos adultos às crianças, consciente ou inconscientemente, é que elas precisam ganhar/vencer o tempo todo e a todo custo, sob pena de perderem algo muito importante e serem, assim, punidas. Por isso não podem errar jamais. Errar é, literalmente, imperdoável. Errar um gol, errar uma palavra, errar um gesto, errar um pensamento…  Não é permitido, é necessário ser perfeito (leia-se acertar) em nome do alto rendimento e da alta performance.

Sob tais condições, comove profundamente acompanhar a expressão do imaginário infantil, seja em jogos dramáticos ou gráficos, narrando imagens sobre esse mundo doloroso e repleto de culpa individual. Guerreiras essas nossas crianças a brigar por um pouco de paz, contando-nos histórias de um menino que foi abandonado pela família porque não conseguia fazer gol, uma onça que teve seu filhote roubado porque dele cuidava muito vagarosamente, um patinho  humilhado em seu habitat por não conseguir nadar igual aos outros colegas, um coelho que precisa desesperadamente se esconder porque será devorado por um enorme leão!

A estas crianças massacradas correspondem pais também assolados pela culpa, que solicitam cuidado e compreensão. Pais que supõem nunca poder errar, pais a quem temos que proclamar indefinidamente que “ser humano é errar”, é ser frágil, é ficar em dúvida, é não saber.

Por tudo isso entendo ser mais do que urgente nos perguntarmos enquanto sociedade: o que queremos para nossos filhos, como desejamos que seja o futuro?

 

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