
A saúde mental é um campo complexo de atuação, que envolve pesquisa e investigação contínua das relações humanas. Partindo do pressuposto de que nossa subjetividade é constituída pela história e pela sociedade em que vivemos, gostaria de compartilhar, neste texto, algumas questões importantes acerca das relações amorosas, que estão em permanente movimento de tensão e transformação.
Enquanto terapeuta de casais, observo nestes últimos anos uma demanda maior envolvendo situações de violência psicológica e depressão, em geral comprometendo muito mais a saúde das mulheres, mas não exclusivamente. Casos de suicídio entre homens, motivados pelo término do relacionamento, ou de feminicídio não são tão raros na clínica do século XXI.
Sabemos, obviamente, que não há novidade alguma em tantas violências familiares, tendo em vista que elas são seculares e remontam à cultura sexista/racista do Ocidente. Pois bem, o que há de novo, na verdade, é a possibilidade de articular outras teorias para compreender esses fenômenos.
Os estudos de gênero, produzidos e difundidos com mais ênfase desde os anos 70, contribuem significativamente no entendimento dos conflitos entre casais, tanto hetero quanto homo afetivos. É preciso que a psicologia se aproprie do conhecimento que tais estudos propiciam, pois desta maneira o tratamento certamente poderá ser mais efetivo. O olhar sistêmico, psíquico e comportamental para um casal precisa ser conectado à lente do gênero, já que homens e mulheres são educados diferentemente.

Ainda que não tenhamos consciência, nosso modo de viver é absolutamente generificado. Quando nos referimos a uma pessoa, apontamos para um homem ou uma mulher, cis ou trans, sempre. Não há indivíduo sem gênero em nossa sociedade.
No entanto, somos disciplinados por normas de convivência que nos ensinam a naturalizar nosso modo de existir, então não percebemos o processo de generificação. Ser mulher, mãe e dona de casa, por exemplo, não é um fato biológico, mas sim um papel social feminino histórico, construído e imposto em determinada época – do século XVIII para o XIX, nos primórdios do capitalismo, como aponta Sílvia Federici. O “amor romântico”, tão discutido nas mídias, também foi uma construção deste período, estabelecendo expectativas nos relacionamentos e fazendo-nos lembrar que nem sempre os seres humanos amaram da mesma forma.

Valeska Zanello, Professora Doutora e psicóloga, com base em ampla fundamentação teórica, afirma que homens e mulheres se constroem subjetivamente de maneiras distintas, considerando que são capturados por dispositivos de poder também diferenciados: para os homens a eficácia e a máxima performance sexual/financeira; para as mulheres o amor, a beleza e a maternidade em primeiro lugar. Tais dispositivos são institucionalizados, atuam sem que percebamos nas relações familiares, nos meios de comunicação, nas escolas, nas empresas e ambientes de trabalho em geral.

Levar em conta essas questões permite que possamos abordar o sofrimento e os problemas conjugais de modo mais ético, lúcido e realista. O que se espera de um homem no casamento? Que ele seja provedor? E se ele ficar desempregado ou impotente sexualmente? De uma mulher, o que se espera? Que seja cuidadora, esteja sempre magra e bonita? Por que o dilema família x trabalho ainda persiste para grande parte das mulheres?
As perguntas são infinitas! Será possível ignorá-las, se o propósito de um acompanhamento terapêutico for acolher e elucidar o relacionamento, provocar reflexões, promover saúde mental e criar perspectivas outras de amor? Eu creio que não. Para respondê-las, porém, é necessário seguir estudando a articulação das teorias de gênero – masculinidades e feminismos – com a psicologia e a sociologia.

