A Filha Perdida: notas para reflexão

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A Filha Perdida é um drama baseado em um dos livros de Elena Ferrante, que estreou recentemente na Netflix e vem propiciando inúmeras discussões, especialmente no campo das relações familiares e de gênero. O filme é ótimo, mas também muito angustiante. 

Trata-se da história de uma mulher, mãe e esposa, que não se enquadra naquilo que a sociedade espera dela, por isso sofre com o passado, com as decisões que tomou e com a culpa, principalmente. Algumas pessoas poderão considerá-la uma espécie de vilã, o que não procede, a meu ver. No tribunal das sociedades moralistas e patriarcais, com certeza a protagonista será julgada como uma bruxa má, a merecer sofrimentos e castigos sem fim! 

No entanto,  o que parece ser importante nesta película são as perguntas que precisamos fazer, para nós mesmas e para os outros, no que diz respeito a questões de gênero, de sexualidade, de subjetividade, de relações amorosas e familiares, de maternidade e paternidade. 

Já é tempo, por exemplo, de percebermos o quanto vivemos numa sociedade generificada, que nos impõe funções e padrões tanto afetivos quanto comportamentais, de acordo com o gênero. Será que um homem sofreria o que a personagem sofre no filme? Ele seria julgado e se julgaria tal qual ela se julga? Ainda, será que as responsabilidades maternas e paternas são divididas de maneira simétrica no cuidado diário com os filhos? E as tarefas domésticas, como são distribuídas? Tenho certeza que há significativas diferenças entre um e outro. 

A Filha Perdida coloca em cena, para que possamos debater, os dispositivos amorosos e maternos, tão opressores para nós, mulheres. Mesmo no século XXI, tais dispositivos permanecem em ação, até porque são seculares. Para os homens, a eficácia, a máxima performance sexual e financeira; para as mulheres, o amor e a maternidade em primeiro lugar. Ambos sofrem, mas de formas diferentes, por razões também diversas, posto que há uma subjetividade feminina e outra masculina. 

É fundamental assinalar que sempre que nos referimos a uma pessoa ou indivíduo, estamos apontando para um homem ou uma mulher. O que significa, portanto, ser um homem e ser uma mulher em nossa sociedade? Quais as expectativas em relação a cada um?

Creio que vale a pena pautar essa discussão.

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