Cinema para pensar: Anatomia de uma Queda

Um filme dilacerante, muito competente e surpreendente, que dentre tantas questões nos coloca a principal: como conhecer a verdade de um fato, se dele só acessamos fragmentos, relatos, imagens que podem ser distorcidas e manipuladas? Será que nossos julgamentos estão corretos ou são apenas crenças, invenção, ficção? Na era da pós-verdade, esta é uma obra histórica. 

Uma escritora de sucesso é julgada por suposto homicídio do marido, professor e também escritor, que poderia estar deprimido e ter se suicidado. A diretora não revela o que realmente aconteceu ao longo do filme. Somos todos árbitros desse julgamento, tanto quanto os personagens da história. Porém, esse não é mais um daqueles longas cansativos de sessões de audiência e suspense. Não, nada a ver.

Muitas narrativas se apresentam, em camadas diversas e sedutoras. Levantamos inúmeras suposições, verdades que ora se sustentam ora não. Áudios, vídeos, relatos de terceiros, cenas da reconstituição da queda, literatura de auto ficção de Sandra e principalmente, o filho de 11 anos, que não por acaso, tem deficiência visual.

Pelos olhos frágeis de Daniel, este menino encantador, e por seus ouvidos poderosos, acompanhamos este drama inquietante, que nos leva a muitos questionamentos sobre como somos conduzidos a produzir verdades, hipóteses sobre o mundo, narrativas para nos apaziguar. O casal estava em crise e não conseguia se separar? Sandra era bissexual? O filho inventou histórias ou falou o que realmente aconteceu? E qual a importância desses fatores para um julgamento? 

Dirigido por Justine Triet e premiado em Cannes com a Palma de Ouro, Anatomia de uma Queda, película francesa, merecidamente concorre ao Oscar 2024 em várias categorias.

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