Notas sobre um Encontro da Psicologia

Convidada para participar do II Encontro de Psicologia Existencial e Humanista da PUC Campinas, na Mesa Redonda que discutiu o tema Sexualidade e Gênero, apresento algumas reflexões compartilhadas neste evento tão prazeroso, que reuniu psicólogas e estudantes de psicologia.

Enquanto profissional da área de saúde e educação, é preciso atuar numa perspectiva não patologizante no que diz respeito às identidades de gênero e orientação sexual. Mais do que isso, é absolutamente necessário considerar que todas as pessoas podem escolher e experimentar a vida de modos diversos, inclusive diferentes das normas de gênero e sexualidade. Isto significa afirmar a possibilidade de autonomia dos sujeitos para ser e estar no mundo como desejam, como se sentem mais felizes e potentes.

Há muitos modos de existência! Por que certos modos de existir são ainda considerados doença? Por que há tantos projetos de leis anti trans circulando no Congresso Nacional brasileiro e norte americano, buscando impedir avanços conquistados há tão pouco tempo pelos grupos LGBTs?

Talvez porque nossa sociedade seja rigidamente normatizada, ao contrário do que parece. Afinal, desde o século XIX as ciências médicas e psicológicas pautaram o que é normal e o que é anormal, conceitos que seguramente estão sendo desconstruídos desde a segunda metade do século XX, mas que ainda perduram em 2023.

Precisamos, como profissionais da psicologia, refletir sobre o assujeitamento a que estamos submetidos. Assujeitamento que, segundo o filósofo Michel Foucault, subjetivamos em nossa experiência de vida sem perceber.

Será que realmente existe uma essência que nos faz ser de um jeito ou de outro, nos faz ter uma identidade e não outra, nos fixa em uma sexualidade? Tanto Foucault quanto outras autoras da filosofia, principalmente relacionadas à teoria queer, como Judith Butler, desenvolvem e argumentam a concepção de identidades fluidas, apontando para o fato de que nós podemos mudar e transformar nosso modo de ser, de nos relacionar e de viver em qualquer fase de nossas vidas. Não há essência!

Para indagar ainda mais sobre nossa prática, sobre o que estamos fazendo na clínica ou na educação e de que pressupostos partimos, quais são nossas verdades, seria interessante nos perguntarmos, por exemplo, em que momento de nossa trajetória começamos a nos entender como cis e heterossexuais, se este for o caso. Porque corremos o risco, mesmo sem querer, de fazer intervenções nada saudáveis ao acompanhar e tratar pessoas que se definem como LGBTs. Nosso referencial ainda é heteronormativo patriarcal, embora novas produções de saber estejam em campo.

O texto Desdiagnosticando o gênero, de Judith Butler, que indico para leitura, aborda a questão do poder de verdade da psicologia e da psiquiatria na autorização para que uma pessoa realize sua transição de gênero. Que poder é esse? Do que se trata?

Indico também o filósofo Paul Preciado, em especial seu livro Eu sou o monstro que vos fala. Nele, Preciado, que é transgênero, dirige-se à psicanalistas para justamente questionar a psicanálise.

Deixe um comentário