Maternidade no século XXI

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O que é maternidade no século XXI? Quais conceitos e imagens possuímos sobre isso? E que questões merecem ser discutidas?

Talvez pudéssemos falar em MATERNIDADES, porque não há somente uma experiência sobre ser mãe, há muitas por toda história humana, em diferentes culturas e épocas. O processo biológico da gravidez pode ser universal, mas a maternidade, ou melhor, a maternagem, conforme definiu o médico e psicanalista Donald Winnicott, não é.

Maternagem e paternagem são conceitos que vêm sendo utilizados com frequência, apontando para os cuidados básicos que os bebês e as crianças necessitam e para a forma como esse cuidar ocorre no dia-a-dia, não importando se a cuidadora/cuidador é mãe ou pai biológico.

Na sociedade contemporânea, embora muitas mudanças tenham ocorrido, ainda é a mulher a grande responsável pela função do cuidar. Nesse sentido, ser mãe pode ser algo difícil e penoso – principalmente se for uma mãe solo -, ao contrário da idealização das propagandas, que apresentam imagens de felicidade e graça no Dia das Mães.

É evidente que a maternidade também pode ser experimentada como um processo de aprendizagem, de crescimento e de transformação pessoal. Mas nem sempre e nem a todo momento essa experiência é gratificante ou prazerosa. Há situações e fases de conflitos, em que angústias, inseguranças e frustrações predominam. Não há como pensar em uma mãe perfeita e feliz o tempo todo, com superpoderes a toda prova!

Mesmo sabendo disso, no entanto, a maior parte das mulheres se cobram excessivamente, nutrindo um sentimento de culpa constante, por erros ou acertos que se sucedem. Porque para ser uma “boa mãe”, no neoliberalismo que caracteriza o sistema e a subjetividade de nossos tempos, é preciso tentar a todo custo ser perfeita. O que isso significa ninguém sabe responder, obviamente.

Haveria uma espécie de “mãe empreendedora”, sempre à beira da exaustão, cultivada nos discursos que dominam a retórica sobre maternidade? É a mulher quem faz a gestão da casa, mesmo que não execute todas as tarefas domésticas. É também ela quem organiza quase tudo com respeito à educação das crianças/adolescentes. Ela é mãe professora, mãe motorista, mãe nutricionista, mãe psicóloga. Trata-se de um “empreendedorismo doméstico”, essa atividade não remunerada há séculos, agora com demandas muito maiores?

Gestão e empreendedorismo são conceitos da área empresarial, que atualmente ordenam também as relações familiares, os afetos, as expectativas e os projetos compartilhados. Ser um sujeito empreendedor, bem como fazer parte de uma família de alta performance não significa apenas ter excelente produtividade no campo do trabalho. É preciso, ademais, ser uma mãe produtiva, que nunca descansa; um pai provedor, que nunca falha, ambos criando filhos e filhas acima da média, de preferência. O produtivismo é um dos valores de sustentação da nossa sociedade, impondo normas que nos subordinam, inconscientemente, ao cansaço e à insatisfação permanentes. Não se pode parar nunca, eis um dos princípios da pós-modernidade neoliberal!

Nada a ver com natureza essa imposição que constitui o humano ocidental e a maternidade nos dias de hoje. Somos parte de uma construção histórica, social e econômica, que de algum modo determina nossa subjetividade, nossa forma de ser, pensar, sentir e agir.

Creio serem estas algumas das complexas questões que solicitam discussão e reflexão, tendo em vista que a tentativa de cumprir com o mandato neoliberal materno é insano, provoca sofrimento e adoecimento tanto físico quanto mental nas mulheres e também no grupo familiar como um todo.

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