Sociedade paliativa

Em Sociedade paliativa – A dor hoje, o filósofo Byung-Chul Han afirma que uma das características da sociedade contemporânea é padecer de algofobia: “Hoje impera por todo lugar uma algofobia, uma angústia generalizada diante da dor” (pg 9). Nesta obra, Han discute a nossa perda de capacidade para sentir e lidar com a dor, física ou mental.

Em A sociedade do Cansaço, seu livro mais reconhecido, Han argumenta que o sistema neoliberal produz uma espécie de positividade sem limites, gerando a auto exploração de si mesmo para o desempenho permanente. Segundo ele, a liberdade no mundo contemporâneo situa-se nas fronteiras da auto exploração. Não é mais necessário que haja opressão de um outro, nós mesmos nos exploramos indefinidamente. A liberdade que nos pertence seria a liberdade para se explorar, a partir da ideia (ou ideologia) do empreendedorismo, tão difundida, em vista do desmonte da legislação trabalhista e do Estado de bem-estar social, que vem ampliando a precariedade no trabalho e a desigualdade socioeconômica.

É esta mesma sociedade do cansaço e do desempenho que também produz o paliativo, sendo a psicologia um de seus dispositivos. A psicologia positiva, que se ocupa do bem-estar, da felicidade e do otimismo, propicia que a dor e o enfrentamento do sofrimento seja deslocado para uma lógica de desempenho, impondo uma visão de que a dor tem que ser derrotada, pois significa fraqueza e fracasso, em tempos de excessivo gozo e curtição.

O curtir, inclusive, pertence a todas as esferas da vida, como se fosse possível viver em um registro de eterno entretenimento, buscando na diversão um antídoto à dor. Sem dor, porém, não há o outro, não há a diferença, perde-se a sensibilidade e vive-se apenas o consumo e a coisificação.

As conexões humanas da era digital, tão frágeis, marcadas pelo imediatismo e pela falta de alteridade, acabam propondo a inexistência do outro como sujeito, o empobrecimento da potência criativa e da vitalidade. Resta, assim, a agressão ou a solidão. É possível, inclusive, que estejamos muito mais sozinhos do que em épocas anteriores. A cooperação e a solidariedade não mais prevalecem na nossa forma de viver e o adoecimento mental pode ser uma resposta a tal contexto.

“Ser feliz é a nova fórmula da dominação. A positividade da felicidade reprime a negatividade da dor” (pg 26). O indivíduo assujeitado precisa, então, desenvolver esse dispositivo de felicidade neoliberal para ser muito eficiente, já que “a dominação se exerce sem nenhum grande esforço. O submetido nem sequer tem consciência de sua submissão. Ele se supõe livre. Sem qualquer coação estranha, ele explora a si mesmo. A liberdade não é reprimida, mas explorada. Seja livre produz uma coação que é mais dominante do que “seja obediente” (pg 26).

“Seja feliz, seja livre, divirta-se e curta!” Eis alguns dos clichês da nossa sociedade paliativa, programados para anestesiar qualquer sensação de mal estar. A dor, no entanto, é o que nos faz humanos. Para Han e outros autores citados por ele, é uma questão ética e política, pois faz parte de uma relação na qual valores, afetos e ações estão implicados. Deixamos de senti-la quando eliminamos o outro. Desse modo, podemos estar perdendo a capacidade de nos sensibilizar, de ter empatia e de nos colocar no lugar do outro.

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