O desaparecimento de Si

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Desaparecer de si é uma leitura que nos afeta profundamente. Imaginar que podemos ser os personagens deste inquietante tratado sobre o Ser contemporâneo – jovens, adultos ou velhos mergulhados no vazio em busca de algum sossego – é tão aconchegante quanto devastador.

Não, não é um romance. David Le Breton é um antropólogo francês, autor de vários livros importantes abordando a corporeidade, pesquisador e professor de sociologia na Universidade de Estrasburgo da França. Em Desaparecer de Si ele investiga as mais diversas formas de apagar a si mesmo para viver algum tipo de experiência arriscada, que o indivíduo sente que vale a pena. Essa errância pelo mundo pode ser breve e provisória, ou eterna e fatal.

Não suportando as pressões e coerções que as normas e os vínculos sociais impõem à identidade, muitos de nós cansamos e atravessamos certa fronteira de conexão com o que nos cerca, iniciando a passagem para uma espécie de “branco”, nome que o autor propõe ao desaparecimento de si.

Adolescentes e jovens, por exemplo, renunciam ao mundo das exigências excessivas através dos jogos online, da dependência química, das práticas de sufocamento ou dos quadros sintomáticos de depressão. Sentem-se, desse modo, libertos temporariamente de tudo que consideram constrangedor, opressor, violento ao corpo e à existência.

Existir, aliás, é um fardo tão pesado que requer manobras arrojadas de sobrevivência. Sim, porque a intenção não é morrer – para alguns pode até ser -, mas sobreviver ao caos e ao esgotamento da vida em sociedade.

Inspirado em muitos autores da literatura, incluindo Beckett, David Le Breton nos conduz a um questionamento sobre nossa própria existência e sobre o sofrimento de todos e todas que estão a nossa volta, que cuidamos e amamos.

Em um mundo completo de incertezas, o “branco” é um fenômeno que vem se ampliando cada vez mais. “Essas condutas são tentativas de fugir de si por meio de um produto alucinante ou de uma ação que proporciona um apaziguamento provisório.” Isso significaria o quanto a vida está insuportável, o quanto as relações humanas estão fraturadas?

É preciso compreender as fraturas para criar novos modos de existir, novas condições de Ser. Ao menos para que o desaparecimento não seja uma forma de morrer, seja tão somente “uma experiência de morte” e de um “perder-se deliberadamente para nunca mais se perder, reassumir o controle, mesmo que paradoxalmente, sob uma forma homeopática.”

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