Saúde mental no trabalho

É possível constatar, no atendimento clínico psicoterapêutico que realizo há mais de 20 anos, um aumento absurdo de queixas e transtornos mentais relacionados ao campo do trabalho: conflitos de relações interpessoais envolvendo ou não diferentes hierarquias, assédio moral e sexual, sobrecarga, precariedade das condições de trabalho, falta de perspectiva. Esse sofrimento mental se expressa através de quadros de ansiedade permanente, pânico, esgotamento e compulsões variadas.

Tal percepção vem ao encontro das estatísticas divulgadas recentemente sobre saúde mental no trabalho: de 2022 pra cá, houve aumento de 60% nos afastamentos registrados pelo INSS, por transtornos mentais no Brasil. Ademais, os transtornos são também a terceira causa de afastamento. Isto significa que minhas constatações não estão equivocadas. Inclusive, como sabemos, o Ministério do Trabalho criou a Nova NR-1, uma regulamentação voltada para a gestão da saúde mental nas organizações, que busca prevenir, cuidar e agir de forma mais eficiente sobre os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho.

O trabalho tem importância central no nosso mundo. Ele constitui nossa identidade de forma contundente e pode ser fonte de saúde ou de adoecimento. Em geral, é nossa atividade profissional que nos define quando alguém pergunta quem somos. Isso significa que nos identificamos e somos identificados a partir da existência que possuímos no mundo do trabalho. Sendo assim, nosso papel profissional pode agregar sentido e realização pessoal, ser um lugar de reconhecimento, status social e autonomia, ou, ao contrário, pode implicar muito sofrimento. No Brasil, a grande maioria da população não tem oportunidades para aprender e desenvolver habilidades e conhecimentos que gostaria, de acordo com sua capacidade. É um fato incontestável que trabalhar nem sempre é uma escolha, na maioria das vezes é uma obrigação sem sentido agregador, demandado por necessidades absolutas de sobrevivência.

Mesmo assim, a atividade laboral ocupa um lugar muitíssimo valorizado em nossa sociedade, fazendo parte, desde cedo, de nosso imaginário e de nossa subjetividade. Vamos aprendendo que ser uma pessoa importante implica ter um trabalho digno e respeitado, o que pode não ser possível no contexto contemporâneo, em que a precarização está na ordem do dia, como parte do sistema ultraneoliberal em que vivemos. Neste, a competição acirrada é a regra, aliada à máxima produtividade, performance e rendimento.

Transtornos mentais e relações adoecidas estão associadas ao excesso de positividade e à violência neuronal, como aponta o filósofo Byung-Chul Han, em seus diversos livros sobre o que denominou sociedade do cansaço. O avanço do adoecimento mental de trabalhadores e trabalhadoras ocorre em busca de performances altíssimas, sem limites para atingir determinado padrão de sucesso e superação, como ensina e adestra a cartilha neoliberal. Ao mesmo tempo, o mundo é excessivamente líquido, demasiadamente flexível, com políticas de desmonte e precarização no trabalho, que fragmentam e fragilizam os vínculos sociais e comunitários, conforme afirma Zygmunt Bauman.

A subjetividade neoliberal constitui inexoravelmente nosso modo de ser, sentir, desejar e agir. Em todos os âmbitos, mesmo nas relações familiares, nossa subjetividade é a mesma. Atuamos e pensamos em termos de rendimento, pela lógica da produtividade e do utilitarismo. Por vezes, dizemos: “investir em nossos filhos”. Ou ainda, numa relação amorosa: “ele não me entrega”. Todas as relações são capturadas pelo modo neoliberal de ser, que pauta o corpo, o desejo e a psique, na busca de superação absoluta para explorar a si mesmo e ao outro.

Eis um possível diagnóstico daquilo que vem sendo considerado como transtorno mental em nossa época, relacionado ao trabalho! É preciso configurá-lo com clareza e honestidade, para que se criem condições de enfrentamento, cuidado e transformação.

Acesse o Guia de informações sobre os Fatores de Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho:

https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/noticias-e-conteudo/2025/abril/inclusao-de-fatores-de-risco-psicossociais-no-gro-comeca-em-carater-educativo-a-partir-de-maio

Deixe um comentário