Revelar o final de uma história nunca foi sensato, vale a pena assistir o episódio para compreender a proposta da discussão. O que está sendo problematizado é que já vivemos nesta distopia de uma sociedade absolutamente vigiada, sendo que as mães e os pais foram aprendendo a pensar a vigilância contínua sobre os filhos como algo necessário e positivo. Tal formulação, no entanto, não procede, pois ao contrário do que parece, o que o patrulhamento possibilita são transtornos no desenvolvimento infanto juvenil.
Uma criança excessivamente controlada não adquire confiança em si mesma, porque não tem a chance de se construir de maneira autônoma e criativa. Quando adolescente, pode tornar-se extremamente insegura, desconfiada, agressiva ou mesmo narcisista. Pode ser muito autoritária ou submissa, identificar-se com o controle tornando-se também controladora ou, por outro lado, subserviente, cativa.
Não é nada saudável educar os filhos partindo do pressuposto de que devem nos fazer relatórios diários, caso contrário conferimos as câmeras para saber o que ocorreu de fato. Não é nada saudável que precisemos monitorar nossas crias 24 horas ao dia para nos sentirmos menos preocupados. Essa gestão educacional pela vigilância absoluta, que vem se implantando e se desenvolvendo nas escolas e nas famílias em nome da segurança e do sossego, proporciona um processo de infantilização, dependência emocional e ausência de responsabilidade individual, tanto dos adultos quanto dos jovens. Exemplos não faltam e o filme narra um deles, com consequências dramáticas.
Necessário se faz, portanto, rever os padrões de relacionamento com os filhos e questionar a imposição (sutil) das tecnologias em nossas vidas. Não seria melhor tentar criar relações baseadas na confiança ao invés de relações baseadas na vigilância e na ameaça?
