
Estamos em abril de 2020 e vivemos, no mundo todo, uma pandemia que não imaginávamos ser possível. Mais um vírus de contornos devastadores para a humanidade, como foi em 1918 a chamada gripe espanhola. Não sabemos como será o mundo daqui há alguns meses, nós seres humanos pós modernos tão afeitos ao controle de tudo, do futuro, das nossas ações, obrigações, deveres, conquistas e responsabilidades. Com exceção das premonições feitas por cientistas e escritores de ficção, erramos as previsões.
Muitos iam viajar em abril ou maio. Outros iam trabalhar excessivamente. Há os que tinham planejado novos cursos e estudos, bem como os que idealizaram ganhar grandes somas de dinheiro na bolsa de valores. Uma vasta parte da população mundial, no entanto, sempre viveu à margem destas possibilidades, trabalhando incansavelmente a cada dia para ter comida em casa. Estes também foram afetados porque podem ficar ainda mais miseráveis ou até morrer literalmente de fome, se não houver políticas públicas adequadas.
Enfim, difícil pensar que alguém tenha ficado à parte da nova conjuntura determinada pela COVID-19. Mesmo as pessoas que estão apreciando, por exemplo, trabalhar ou estudar em casa, “dar um tempo”, como dizem, podem ser vítimas ou perder familiares com a doença.
Apesar de tudo isso, talvez possamos dispor desse momento para refletir sobre nossas vidas, sobre em que mundo queremos viver e como construí-lo. Seria essa, então, uma oportunidade para mudanças?
Levando em conta o tema deste post, a Páscoa, não deveria haver dúvidas a respeito disso. Páscoa tem esse significado, renovação, reinvenção, recriação. Será que o caos da pandemia poderá nos proporcionar algum nível de reorganização humana, transformando valores, relações e sistemas já caducos? Será que o desespero poderá gerar solidariedade, empatia e arranjos sócio econômicos mais cooperativos e generosos?
Como sempre, há diversas apostas, visões, argumentos e especulações sobre o tempo que virá, o Pós COVID. A angústia é tamanha, produzindo incessantes exercícios de futurologia, individual e coletiva. Se conseguimos prever minimamente o que ocorrerá, nos sentimos mais seguros e aliviados, em nossa suposta, falsa e vã onipotência. Sim, porque tal segurança é ilusória, todos que são adultos sabem disso. E sabem também que precisamos dessa ilusão para viver, precisamos fingir que a morte não existe a cada dia que levantamos da cama.
O que acontece quando encaramos de frente, enquanto humanidade, o terror da morte? O que acontece quando somos obrigados a ver se revelar, diante de nossos olhos incrédulos, a penúria e a indigência de enormes contingentes populacionais abandonados pela sociedade e pelo Estado, à mercê da extrema pobreza? O que acontece quando não há mais nenhuma forma de invisibilizar a realidade ou de torná-la menos insidiosa, menos pérfida?
Eu realmente não sei o que acontece. Mas espero e farei o possível para que sejamos todos corajosos, éticos e dignos o suficiente para enfrentar o que a situação da pandemia já está nos trazendo, em nossas vidas particulares e em nossos vínculos sociais, em nossas reflexões individuais e em nossa atuação coletiva.