

Quais são as leituras, os filmes, as séries, os videoclipes que permanecerão em nossa memória, deste peculiar 2021? Que palavras e imagens podem definir nossa experiência em um ano tão difícil como esse que finda?
Escolhi alguns poucos livros, dentre inúmeros que li, para compartilhar aqui. Afinal, conhecimento e novos repertórios culturais são formas de nutrir o encanto pela vida e a competência profissional.
Conheci o historiador israelense Yuval Noah Harari, através de suas aclamadas obras Homo Sapiens – Uma Breve História da Humanidade e Homo Deus – Uma Breve História do Amanhã. Devorei ambas, nas quais Harari apresenta a visão científica da evolução do gênero humano no planeta Terra, situando especialmente a espécie homo sapiens, que é a nossa.
Em Homo Deus, no entanto, o autor faz previsões distópicas para a humanidade, em função do desenvolvimento acelerado da Inteligência Artificial, que em breve criará uma nova espécie humana, baseada na ciência e na “religião dos dados”. Extremamente pertinente a discussão proposta, ao mesmo tempo que assustadora. Como será nosso futuro com tanta tecnologia disponível? O que ocorrerá no mundo do trabalho? Os robôs nos substituirão? Por que as grandes corporações precisam ser regulamentadas? Pautas de difícil digestão.


O livro Neoliberalismo como Gestão do Sofrimento Psíquico, cujos organizadores são o psicanalista Christian Dunker, o filósofo Vladimir Safatle e Nelson da Silva Jr. é uma instigante obra sobre os modos de sofrimento mental na sociedade contemporânea. Trata-se de um estudo que fundamenta a crítica ao sistema neoliberal, produtor de doenças também físicas. Ao impor os valores da alta performance, do aprimoramento contínuo e da meritocracia, o neoliberalismo promove a construção de uma subjetividade culpada e deprimida, de um sujeito permanentemente infeliz, desgastado e alienado do contexto em que vive. Para profissionais de saúde mental, esta é uma leitura indispensável.
Ainda no campo da saúde mental, a Professora Doutora Valeska Zanello possibilita uma discussão importantíssima em Saúde Mental, Gênero e Dispositivos – Cultura e Processos de Subjetivação. Será que percebemos que habitamos uma sociedade absolutamente generificada, e que nossa forma de existência é construída a partir disso? Quais são os dispositivos que nos capturam para sermos inquestionavelmente homens ou mulheres? E por que precisamos rever tais dispositivos? Feminilidade, amor e maternidade para as mulheres, em oposição à masculinidade e eficácia para os homens, eis os mecanismos sociais tradicionalmente instituídos, propiciando adoecimento psíquico.
Da literatura, gostaria de citar mais uma vez Torto Arado, romance belíssimo de Itamar Vieira Jr. Já escrevi a respeito, mas não me canso de mencioná-lo!

Outro romance magnífico, que eu não havia lido, é A Obscena Senhora D, da grande escritora e poeta Hilda Hilst. Não tenho palavras para designar meu encantamento com essa obra e precisaria escrever outro texto, específico e singular, sobre a senhora viúva de Hilda Hilst, vivendo embaixo de uma escada, entre a loucura e a sanidade. Lirismo, verdade, dor e saudade.
Para encerrar, fica o convite ao delicioso Outros Jeitos de Usar a Boca, livro da jovem poeta indiana Rupi Kaur. Dividido da seguinte maneira: a dor, o amor, a ruptura, a cura. Precisa de mais?
“estou aprendendo
a amá-lo me amando.”
“você tem dores
morando em lugares
em que dores não deveriam morar.”
