Educação, neoliberalismo e desamparo

O impacto do avanço das medidas neoliberais no sistema público de ensino pode ser constatado diariamente. Não é difícil perceber o descaso, o abandono e o desamparo, acompanhados de certo recrudescimento do autoritarismo nas relações hierárquicas das instituições educacionais. O agravamento de episódios de violência escolar, em geral praticada por alunos, amplia o mal estar dos educadores, propiciando um nível de sofrimento razoavelmente mensurado nas estatísticas de afastamento por doença mental.

Como tem sido possível aos professores suportar tanta pressão institucional, junto ao desmonte programado da educação pública? No estado de SP, cortes orçamentários que reduzem salários, avaliações contínuas para preencher indicadores burocráticos, imposição de plataformas digitais à revelia e remoções sem critérios constituem o dia-a-dia da rede de ensino fundamental e médio. Muita dor, cansaço extremo, quadros de depressão, ansiedade e pânico resultam dessa política desastrosa e desumanizante. É impossível, a meu ver, não ficar solidário aos trabalhadores e trabalhadoras da área de educação.

Sabemos que a subjetividade é uma construção histórica e que as aflições, angústias ou transtornos mentais também são constituídas socialmente. Por isso afirmo, como tantas outras profissionais da área de saúde mental, que todo sofrimento é de ordem política, ou seja, que os afetos, as doenças, os valores, os conflitos interpessoais e o psiquismo são formados a partir da cultura do nosso tempo, incluindo as relações de poder que dela fazem parte.

Isto posto, é preciso mais do que nunca acolher os educadores, dialogar e potencializar grupos, mobilizar a sociedade, denunciar e questionar a política de desmantelamento da educação.

Na clínica psicoterapêutica, enquanto testemunha de tanta crueldade e insalubridade, é preciso problematizar a dor e os sintomas dela decorrente, partindo de uma configuração política, social e coletiva. Mesmo que o acompanhamento seja individual, a abordagem do sofrimento necessita de contextualização, para que não se repita o mantra neoliberal de culpabilização dos sujeitos, por erros e fracassos que na verdade não são deles, são desse sistema brutal no qual, de alguma maneira, todos estamos inseridos.

Para terminar este texto, gostaria de encontrar uma palavra síntese. Não sei se esta palavra é resistência, mas é a única que me ocorre no momento. A outra, que em mim fala e estima, é ternura. Que venham a resistência e a ternura de mãos dadas!

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