Este é um ano atípico, pois ao iniciá-lo já percebemos o quanto as pessoas ao nosso redor estão tristes, desanimadas, impotentes e sem perspectiva. Não poderia ser diferente, embora também existam muitas pessoas totalmente insensíveis à tudo o que está ocorrendo no mundo.
Um quadro que podemos chamar de depressão social, já instalado nos anos anteriores, agrava-se agora. Reina uma enorme desesperança a partir desse caos social, econômico e sanitário que vivemos.
Poderíamos enfrentar a situação da pandemia com mais tranquilidade, se tivéssemos líderes políticos decentes, dignos e preocupados com a vida da população. Não temos, principalmente aqui no Brasil. Se a polarização entre civilização e barbárie fosse compreendida e a opção pela primeira se realizasse, teríamos mais condições de lidar com o sofrimento de todos nós. Mas não é o que constatamos: a barbárie se alastra através de fake news que a cada dia fraturam mais e mais as relações sociais, afetivas e familiares.
Eu nunca imaginei assistir tanto descaso pela vida, de si e do outro. Nunca imaginei que pudesse haver tanto desprezo humano, tanta falta de cuidado no interior das próprias famílias, inclusive; tanta onipotência mascarada de religião, espiritualidade, felicidade. Tanta indiferença e euforia gratuita.
Sim, eu sei que o holocausto ocorreu, sei que o projeto genocida de escravização fundou o capitalismo. Eu sei também que no Brasil houve um enorme campo de concentração até os anos 80, o famoso Hospital Psiquiátrico Colônia, em Barbacena – MG. Mas eu pensei que tudo isso fosse passado, mesmo sendo recente.
Como muitos seres humanos, eu me enganei e fico me perguntando sobre o que nos resta. A única resposta que me ocorre, por enquanto, é a solidariedade, a busca pelo colo do outro que tenha capacidade de empatia e de partilha. A criação de grupos de amizade, grupos de estudos, terapia, leitura e artes. Porque sozinhos não conseguiremos.
O caminho não está apenas dentro de nós, como dizem; está entre nós, na construção possível de um novo coletivo, no qual o individualismo possa ceder lugar ao que talvez chamem de amor.