Relações familiares: expectativas parentais

Muito mais do que percebemos, as expectativas formam um grande vetor de força e fragilidade em nossos relacionamentos, participando ativamente de nossas emoções, ações e fantasias.

Um casal que está prestes a receber um bebê no mundo, por exemplo, pode imaginá-lo loiro ou moreno, de olhos castanhos ou azuis, do gênero feminino ou masculino, de pele branca ou negra ou amarela. Pode ainda fantasiá-lo sendo sapeca ou bem comportado, tornando-se músico, médico ou engenheiro. As fantasias são muitas e revelam expectativas acerca da criança que ainda nem existe concretamente, mas que vai tomando forma e se corporificando no útero materno.

Quando chega ao mundo, portanto, a criança já está inscrita nos valores da sociedade e nos desejos familiares. Porém, para se tornar uma pessoa saudável com o mínimo de autonomia, é preciso que essa mesma criança se diferencie das expectativas de seus pais e cuidadores, trilhando caminhos que nem sempre são esperados.

É relativamente difícil para nós, adultos, separar nossos filhos de nossos próprios desejos. Em geral esperamos que eles sejam aquilo que imaginamos – ainda que inconscientemente -, satisfazendo nossas ambições e frustrações. Até porque sabemos que a vida não é exatamente algo fácil de se construir, nos empenhamos para que eles façam escolhas assertivas, com poucos erros e muitos acertos, garantindo algo próximo do que consideramos felicidade e não sofrimento. Se pudéssemos, pouparíamos nossos rebentos da dor, do fracasso e do desencanto, tornando o impossível possível!

“Os adultos se acham… eles sempre estão certos!”, frase típica de crianças e adolescentes vivendo conflitos que fazem parte do desenvolvimento da própria identidade. Talvez fosse interessante acolher e compreender tais falas, buscando novas alternativas de diálogo, que possibilitem inversões de papéis: como será que é ser o outro, experimentar o que ele vive e sente?

É preciso olhar com mais cuidado para nossos adolescentes. Optamos, nem sempre conscientemente, pela solidão, que pode muito bem ser saudável em determinados momentos. Mas estar junto, partilhar as dores e sofrimentos, as alegrias e as vitórias, com palavras ou em silêncio, com gestos e olhares, com dúvidas, medo e vergonha ( muita vergonha! ), é ainda um caminho possível, uma trilha de pedras e cacos que pede nossa presença, paciência e amor.

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