
Abordar o tema das relações no trabalho, focando as possibilidades dos vínculos e das conexões saudáveis no contexto atual do neoliberalismo, foi a palestra que proferi em novembro na Mérieux NutriSciences Piracicaba. Se nós humanos somos seres fundamentalmente sociais, precisamos compreender a importância dos relacionamentos em nossas vidas. Nenhuma atividade, comportamento ou conhecimento pode ser aprendido sem que haja relações e vínculos entre as pessoas. A socialização entre seres humanos, mesmo em tempos de inteligência artificial, ainda é um requisito para a partilha da vida em comum.
O papel profissional que desempenhamos no campo das relações de trabalho é super valorizado na sociedade e define, em grande parte, nossa identidade, se configurando, inclusive, como fonte de saúde ou de doença mental, emocional e física. Qual a importância dos vínculos e conexões para o desenvolvimento da atividade profissional de cada um e para o bem estar? Será que existe alguma atividade que pode realmente prescindir das relações humanas?
A concepção sobre vínculos vem se transformando ao longo do tempo. Hoje pensamos e funcionamos muito mais em forma de redes virtuais, conectados através da internet, o que propicia, por sua vez, relações fluidas ou líquidas, conforme definição do filósofo Zygmunt Bauman. Em muitos casos não conhecemos fisicamente uns aos outros, o que não significa que não haja conexão. Porém, ainda segundo Bauman, as conexões líquidas são frágeis, marcadas pela fragmentação, pelo imediatismo e utilitarismo, numa lógica custo-benefício. Nesse contexto, a alteridade é precária, o outro pode não existir como sujeito, reinando portanto a coisificação, o narcisismo e a solidão como valores que sustentam a sociedade.
É possível que estejamos muito mais sozinhos do que em épocas anteriores, não nos percebendo mais como seres em relação. A auto suficiência e o individualismo se tornaram modos de ser e de viver. Os vínculos de solidariedade e cooperação humanas foram praticamente desmontados no estágio atual do neoliberalismo. As pontes de conexão com o outro, tão necessárias para que nossas vidas tenham sentido, estão mais restritas do que achávamos no início da era da internet.
Todo este cenário promove e atua como fator de adoecimento mental e físico. Por isso é preciso repensar e recriar os vínculos, valorizando os afetos, os relacionamentos, os valores do cuidado e da interdependência em detrimento da performance individual, da produtividade ininterrupta e da competição.
Sabemos que essa é uma tarefa de extensa proporção e grande dificuldade, mas é nossa função nela prosseguir. Como escreve em poesia a psicóloga guarani Geni Núñes, para reflexão:
“Quando foi que nos ensinaram que quem é forte não precisa de ajuda? Uma árvore é forte porque precisa de água, um rio é forte porque precisa de chuva. Uma planta que só consegue florescer quando recebe a energia do sol não é menos forte por isso. Pelo contrário, nossa força está na nossa interdependência.”