Dia das mulheres: saúde mental e cultura da beleza

A discussão sobre quais são os padrões de beleza que nos orientam, nos constituem e por vezes nos escravizam é complexa, principalmente em relação aos corpos femininos. O filme A Substância, que concorreu ao Oscar 2025, aborda de maneira sinistra o tema da beleza e do envelhecimento.

É certo que nas últimas décadas não houve tanta mudança no estabelecimento destes padrões. Segundo Denise Bernuzzi de Sant’Anna, Historiadora, Pesquisadora e Doutora, as grandes transformações na cultura da beleza no Brasil ocorreram a partir da década de 1950, quando a gordura começou a adquirir o significado que até hoje impera. As balanças se espalharam, os regimes para emagrecer foram banalizados e a mídia passou a espetacularizar casos de obesidade e de anorexia. Na sequência vieram os procedimentos cirúrgicos da medicina estética e bariátrica, impondo o modelo de um corpo ideal magro, torneado, não flácido.

Para quem não possuir esse corpo, resta esconder-se com intensa vergonha ou submeter-se às intervenções da tecnologia. Desespero e pânico para uns, vaidade e exibição para outros. Sim, estamos falando de sofrimento. De corpos considerados abjetos em oposição a corpos dignificados pela “aura do desejo”, segundo uma perversa lógica de consumo capitalista, na qual a indústria da beleza comanda os afetos.

Vale a pena lembrar, no entanto, que já houve épocas em que o padrão de corpo belo e saudável era a gordura, posto que esta significava riqueza, fartura, distinção social, poder e reprodução da espécie humana. No final do século XIX, por exemplo, perto da Proclamação da República, os nobres brasileiros se orgulhavam de suas medidas serem grandes. A magreza é que não era saudável, representando uma ameaça à reprodução.

A indústria da beleza se expandiu com novas tecnologias que vieram da Europa, trazendo consigo uma concepção de domínio das forças da natureza, cujo propósito estava voltado para civilizar e moldar os corpos, produzindo, desse modo, novos sujeitos e novas subjetividades. Foi especialmente a partir dos anos 70 que as cirurgias plásticas se naturalizaram, quando a população urbana já era maior que a do meio rural. Conforto, bem-estar e aparência física transformaram-se em valores imprescindíveis, regulando e pautando as relações amorosas e de trabalho.

Os corpos femininos, sem dúvida alguma, foram os mais expostos e submetidos às crescentes exigências de juventude e beleza. A produção tecnológica do embelezamento se propagou como um direito de todas as mulheres, jovens e idosas, ricas e pobres, naturalizando modos de ser e criando a necessidade de “consertar” o corpo incessantemente. Clínicas estéticas e cirurgiões famosos internacionalmente espalharam-se pelo país, que se tornou o paraíso da beleza feminina, fazendo crescer o turismo e a economia. Não é preciso mais ter vergonha de aderir à medicina estética, nem de exibir os corpos modificados cirurgicamente.

A ideia de “milagre” acompanha a cirurgia plástica, que corrige e elimina o indesejável a fim de produzir o corpo que não envelhece, o corpo que se tinha antes da gravidez, o corpo bem-sucedido e idealizado pela sociedade. Esse corpo supostamente garante prestígio e ascensão social, dispensando os esforços prolongados dos regimes e das academias. Eis o conceito de uma certa medicina estética, que propõe as cirurgias plásticas como solução para a autoestima, para conseguir um emprego ou mesmo possuir um marido.

As exigências para a manutenção desse corpo são infindáveis e jamais terminam, pois novas tecnologias surgem no mercado todos os dias e precisam ser vendidas e consumidas. Uma mulher, uma adolescente, um homem jovem ou velho podem se tornar escravos dessa “ditadura da beleza”.

Somos capturados por normas que definem quem é bonito e quem é feio, quem deve ser desejado e quem deve ser execrado. Sem que percebamos internalizamos tais normas e o desejo de possuir o corpo idealizado, este que supostamente nos propiciará e garantirá algo como o amor, o erotismo, o sucesso e a felicidade. Seria injusto não mencionar aqui o clássico livro O Mito da Beleza, escrito em 1992, pela jornalista norte americana Naomi Wolf. Uma obra imprescindível para compreendermos tão importante temática.

Além de internalizar o desejo pelo corpo ideal, também internalizamos e subjetivamos o chamado “corpo abjeto”, aquele que não deveria existir, indesejado, fora da norma e do mercado, sendo que podemos aprender até a odiá-lo em nós mesmos ou nos outros. Não é incomum ouvirmos relatos extremamente preconceituosos sobre familiares, amigos, companheiros ou companheiras, depreciados porque considerados feios, baixos, gordos, magros ou mesmo velhos demais.

O sofrimento relacionado à possibilidade de ser um desses “corpos abjetos” é muito grande e se apresenta no contexto da clínica psicoterapêutica. A preocupação com o corpo, principalmente na adolescência das meninas, é central, gerando muitas vezes quadros de depressão, anorexia ou automutilação.

Os chamados transtornos alimentares, preponderantes portanto no gênero feminino, relacionam-se diretamente à essa cultura da beleza. Jovens mulheres passam literalmente fome para ter o corpo perfeito, cumprindo regularmente um jejum auto imposto que vai sendo naturalizado. O corpo aprende a disciplina da fome e comer significa fazer algo errado, infringir essa disciplina que de algum modo gratifica, oferece uma espécie de controle e conforto com o corpo, mesmo em sofrimento. 

É tarefa de todos nós, adultos, mães, pais e educadores, profissionais da área da saúde, propor a reflexão, o estudo e o diálogo que propicie a criação de estratégias de prevenção ao horror com o próprio corpo e com o corpo do outro, compreendendo, primeiramente, que a cultura e o funcionamento da sociedade são os agentes constituintes e formadores do sofrimento mental, na medida em que estabelecem os padrões e normas mencionados.

Sigamos na perspectiva de ampliar nosso imaginário sobre a diversidade dos corpos, tanto como um direito quanto como uma nova forma de subjetividade, um modo de viver e estar no mundo, com dignidade, saúde, prazer e amor. 

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