
Embora difícil de assistir, a série The Handmaid’s Tale, baseada no romance distópico O Conto da Aia, de Margaret Atwood, é um alerta sobre o momento histórico que estamos vivendo.
Tanto na série quanto no livro, uma parte significativa dos EUA transformou-se em Gileade, sociedade governada por um Estado fundamentalista religioso totalitário – uma teocracia, como nos países islâmicos -, na qual parte das mulheres são escravas sexuais. A taxa de fertilidade encolheu demasiadamente e são pouquíssimas as mulheres férteis. Estas mulheres férteis são estupradas por comandantes do país em rituais absurdos, com o objetivo de gerar filhos nas castas superiores. Trata-se de uma chocante distopia.

Em Gileade, não se pode ter relações sexuais a não ser para reprodução. Não se pode namorar nem amar livremente. O controle sobre o corpo e as ações de quase todas as mulheres é absoluto. Qualquer distração leva à morte, tendo em vista que a vigilância militarizada é permanente. Os homens que discordam do sistema também são mortos em rituais macabros. Não há qualquer chance de sobrevivência fora da ordem totalitária. As cenas de violência são inúmeras, mas consistentes e reveladoras, a meu ver.
O que ocorreu no passado para que uma distopia de tamanha proporção se tornasse realidade? Em flashback, os acontecimentos mais importantes são narrados. Lembramos então das sociedades islâmicas modernas, nas quais as mulheres são legalmente mortas por estudarem ou por se apaixonarem.
A pergunta indigesta, porém necessária: há condições de que algo parecido aconteça no Ocidente ou no Brasil? A própria escritora e também a produtora/protagonista (Elisabeth Moss) da série afirmaram, em entrevistas, que uma das intenções da obra é denunciar esta possibilidade. Ou seja, assinalar e desvelar os riscos que estamos testemunhando, no sentido de que a sociedade em que vivemos se transforme em um sistema totalitário teocrático. Sinais desse autoritarismo exacerbado podem ser percebidos em inúmeras situações e pronunciamentos de autoridades, propondo leis absurdas de criminalização das mulheres, como por exemplo o indigno e tenebroso PL1904.
Sinais de desespero, tristeza e terror, principalmente das mulheres, também crescem dia-a-dia frente à possibilidade da instauração de novas ordens totalitárias. Felizmente mulheres de diferentes ideologias, etnias, religiões, profissões e classes sociais reagem e se organizam contra a barbárie em curso que, se não for impedida, resultará em uma distopia de grande proporção, cujo romance de Margaret Atwood denuncia. Aguardemos, sempre alertas, pois o futuro permanece aberto.

Andrea Martins – Psicóloga CRP 06/45353 – Especialista em Diversidade sexual e de gênero