
O exercício de reflexão sobre as relações raciais na clínica psicológica é um desafio contemporâneo importante e necessário, tendo em vista os tensionamentos e questionamentos, cada vez mais potentes, sobre o racismo que estrutura nossa sociedade. Na abordagem do Psicodrama, Maria Célia Malaquias, Psicóloga, Psicoterapeuta, Psicodramatista e Mestre em Psicologia Social pela PUC SP vem promovendo essa discussão, com publicações relevantes e reconhecidas no campo acadêmico e na prática clínica e educacional.

É fato que o apagamento e a desqualificação de modos diversos de conhecimento impossibilitou o acesso da pesquisa acadêmica a autores e autoras negras. Franz Fanon, Neusa Santos Souza, Sueli Carneiro, Lélia Gonzales, Virgínia Bicudo, Achille Mbembe nem sempre comparecem nas indicações de leitura sobre ciências humanas e sociais, embora tal cenário esteja felizmente se modificando.
Mesmo assim, ainda não há qualquer perspectiva de que o racismo e a violência por ele gerada terminem. Muito pelo contrário, o Atlas da Violência do Brasil 2023 apontou um aumento no número de pessoas negras assassinadas na última década, correspondendo a 78,5% das mortes. Diante desta conjuntura, quais são as possibilidades, especialmente éticas e existenciais, de atendimento psicológico às pessoas negras, levando-se em conta que a violência racial é um dos fatores mais graves para o adoecimento mental?
Não há, evidentemente, nenhuma receita, estratégia ou formato assegurado para que a clínica seja um espaço potente de afirmação e criação de sujeitos mais autônomos. Porém, reconhecer as situações permanentes de racismo ao invés de negá-las, articulando as dimensões da esfera individual com o campo político e coletivo; acolher e criar condições de pertencimento, aceitando os limites da atuação clínica e da própria capacidade terapêutica de escuta podem contribuir para a construção de um percurso de partilha significativo, quem sabe transformador tanto para o paciente quanto para o terapeuta.
Há que se abrir mão, portanto, de um certo subjetivismo bastante difundido nos discursos psicologizantes das redes sociais, renunciando à neutralidade e assumindo posicionamentos de enfrentamento aos sistemas dominantes de poder, tendo em vista que o acompanhamento psicoterapêutico é uma atuação ético política. Neste sentido, viabilizar novas narrativas, cultivar imaginários de futuros mais promissores, conter a paralisia e a impotência do sujeito que pode estar sofrendo violência racial é tarefa permanente de uma clínica responsável, digna e implicada.


Andrea Martins- Psicóloga e Psicodramatista – CRP 06/45353