Vidas Passadas

Delicadeza, afetividade, compreensão, memórias, perdas, reencontros. Algumas palavras para tentar definir um filme repleto de ternura, que possibilita recordar nossas próprias histórias de vida e refletir sobre relações amorosas, identidade, gênero, classe social, imigração e outros temas importantes.

Em Vidas Passadas, o presente vai se atualizando a partir dos vínculos de outros tempos, construindo uma peculiar realidade. A partida de Na Young da Coréia, adolescente ainda, não impede que ela e Hae Sung, amigos confidentes descobrindo a sexualidade e a paixão, voltem a se procurar e a se encontrar, primeiramente pela internet, depois corpo a corpo, após décadas.

Uma narrativa que parece banal, mas que o filme transforma em algo inusitado e belíssimo, provocando em nós lembranças, sensações e reflexões existenciais. Como fazemos escolhas em nossas vidas? Que critérios adotamos? Qual o peso do acaso e, por outro lado, dos condicionamentos de classe e de gênero? É possível resgatar vínculos, amores ou ressentimentos que marcaram nossas vidas?

Escritora e casada, Na Young, então Nora, morando em Nova York, volta a se encontrar com Hae Sung. Nenhum deles é mais menino e menina efetivamente, mas ambos carregam em si o passado da perda que sofreram, das expectativas que foram obrigados a abdicar, das emoções e desejos que sentiram e que, de outro modo, continuam a sentir. Cada um fez o seu próprio percurso, com seus sucessos e fracassos. Não são mais as mesmas pessoas, mas algo permanece neles a identificar que ainda são os mesmos.

O triângulo que se forma, envolvendo Nora, seu marido e Hae Sung é de uma doçura absolutamente incomum, de uma civilidade que talvez nunca tenha existido. Quem dera os homens pudessem se construir e se comportar a partir da masculinidade apresentada no filme! O mundo estaria muito, mas muito mais avançado em termos de paz e de educação. E as relações de gênero poderiam se tornar construtivas, potentes e cativantes.

Deixe um comentário