Diversidade Sexual e Psicoterapia

A pauta da diversidade sexual nem sempre foi abordada e compreendida pela Psicologia e pela Medicina como é hoje. No século XIX, por exemplo, quando a psiquiatria se tornou uma ciência soberana, o conceito de diversidade sexual não existia. O que a psiquiatria produziu naquele momento foram manuais que segmentavam e rotulavam as pessoas segundo determinados critérios envolvendo práticas sexuais e gênero, com o objetivo de diferenciar normalidade de patologia. Criou-se a ideia de perversão e de aberração sexual para todos aqueles que não correspondiam à heterossexualidade, lembrando que esse conceito, assim como o próprio conceito de sexualidade e de homossexualidade foram elaborados justamente neste período da história.

Causou espanto no mundo ocidental quando a teoria de Freud sobre a sexualidade, especialmente no que diz respeito à infância, foi apresentada. Pensar a sexualidade como um campo de experiências corporais prazerosas e múltiplas, consigo mesmo e com outros corpos, envolvendo não apenas os órgãos genitais, mas também outros órgãos desde a infância; pensar a sexualidade como uma pulsão de vida ou de morte, uma energia que se transforma e que move o ser humano, foi algo surpreendente e revolucionário para o final do século XIX e início do XX.

É incrível constatar, no entanto, que mesmo agora grande parte da sociedade fica escandalizada com essa temática. Dos anos 60 para cá os conceitos científicos acerca da orientação sexual e da identidade de gênero de uma pessoa foram modificados e homossexualidade, transgeneridade (assim como modos diversos de viver o corpo e a sexualidade) não são mais considerados doenças mentais, o que não impediu o avanço de um enorme retrocesso propagado pelo fundamentalismo religioso cristão no Brasil. Não é difícil identificar, na clínica de atendimento a crianças, um certo “pânico moral” dos cuidadores e cuidadoras, muito preocupados com a possibilidade dos filhos serem “transformados” em gays por educadores, segundo eles, mal intencionados.

Por que sexo e sexualidade constituem temas que suscitam angústia permanente na sociedade? Qual o cenário dos tempos atuais? Fala-se muito sobre sexo ou não? Com quem? Onde? Como?

Pesquisas no mundo todo informam que a frequência de relações sexuais vem diminuindo, ao mesmo tempo em que cresce a pornografia e as práticas de sexo virtual.  No Brasil, país em que o crime de assassinato contra homossexuais e transexuais é frequente, a pornografia mais consumida é justamente esta. O que isso significa? E qual o papel de uma clínica psicoterapêutica comprometida, que discute as questões da sexualidade e do gênero com ética e cuidado responsável?

Inicialmente, compreendo, é preciso despatologizar o sujeito da psicoterapia, a fim de considerar sua experiência como singular e não como algo a ser categorizado em manuais de psiquiatria, o que não significa ignorar os condicionantes externos que se configuram como marcadores sociais. A lógica da interseccionalidade é importantíssima na clínica, posto que amplia nosso campo de reflexão ao proporcionar uma investigação mais aprofundada sobre como gênero, sexualidade, etnia, geografia, classe e religião constituem e performam a vida deste sujeito. 

Investigar essas intersecções, porém, não tem ou não deveria ter o objetivo de formatar uma identidade fixa e rígida. Se isso ocorrer, estaremos apenas trocando a psicopatologização pela identidade, tendo em vista que ambas podem caracterizar processos de normatização. Ou seja, ao acompanhar e tratar uma pessoa, é interessante reconhecer os diversos aspectos de sua identidade e socialização, mas ao mesmo tempo é necessário ficar atento para que este reconhecimento não se apresente como uma espécie de “camisa de força”. Ao atender um adolescente transgênero, por exemplo, não é obrigatório que a questão de sua transição seja o propósito da terapia, que o fato dele ser trans seja a queixa principal ou seja a problemática mais relevante a ser pesquisada.

Compreendo, assim, que a perspectiva da diversidade sexual no trabalho de psicoterapia tem a função de ampliar as considerações com o sujeito e sobre o sujeito, não para engendrá-lo ou normatizá-lo em qualquer que seja o padrão do momento, da moda, da mídia ou do grupo de seu pertencimento – embora não seja possível viver totalmente fora das normas, conforme argumentou Foucault.

Andrea Martins – Psicóloga CRP 06/45353 – Especialista em Diversidade sexual e de gênero

Deixe um comentário