Relações amorosas: mitos e crenças

Não há como refletir sobre o ser humano fora da cultura e da história. Por isso, para compreender as relações, a subjetividade, o comportamento e o sofrimento na contemporaneidade, é preciso considerar os marcadores históricos e geográficos, as intersecções de raça, classe, gênero, sexualidade e religião.

A religião, em geral, é um campo desprezado na análise de questões importantes do mundo ocidental. Mas quando estudamos a história da invasão europeia no continente americano, entendemos que a colonização foi um efeito da catequização. Ou seja, o domínio dos povos que já habitavam a América só foi possível através do processo de catequização cristã.

Na realidade, a separação entre religião e sistemas de governo é algo relativamente recente. Com a Reforma Protestante, o Iluminismo, a Revolução Francesa e a ascensão das ciências, a religião passou a desempenhar um outro papel na sociedade, diferenciando-se do Estado, que se tornou laico, tal como conhecemos hoje.

O célebre livro de Stephen Greenblatt, Ascensão e Queda de Adão e Eva, me ajudou a compreender a influência histórica dos mitos religiosos cristãos na monocultura em que vivemos, muito antes do surgimento do Romantismo. Todas nós, mulheres, por exemplo, somos assujeitadas aos valores da instituição do matrimônio desde quando nascemos, sem perceber. Aprendemos a desejá-lo e idealizá-lo, concebendo-o como única maneira de existir.  

Porque muitas mulheres, infelizes no casamento, não conseguem se separar de seus maridos, mesmo tendo condição financeira para isso? Prosseguem na vida cuidando de parceiros infantilizados e machistas, como se isso fosse um mandamento, um destino inquestionável. Casais hetero ou homossexuais que procuram terapia também partem dessa premissa, de que o amor deve ser eterno. É possível desconstruir um sistema de 3000 anos?

Valeska Zanello, psicóloga e pesquisadora, considera que homens e mulheres são capturados por dispositivos de poder social diferenciados, que os constituem subjetivamente: para os homens a eficácia e a máxima performance sexual/financeira; já para as mulheres o amor, a beleza e a maternidade em primeiro lugar. Tais dispositivos atuam de forma institucionalizada sem que percebamos, nas relações familiares, nos meios de comunicação, nas escolas e universidades, nas empresas e nas igrejas.

Penso ser absolutamente necessário rever nossos valores, estudar nossos percursos e nossas relações, por mais difícil que seja; para que possamos construir nossas vidas com sentido, potência, prazer, saúde e alegria.

Andrea Martins – Psicóloga e Psicodramatista CRP 06/45353 – Especialista em Diversidade sexual e de gênero

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