
Autor de Sociedade do Cansaço e de Psicopolitica, dentre outras obras brilhantes, o filósofo Byung-Chul-Han nos brinda agora com Vita contemplativa – Ou sobre a inatividade. Uma primorosa discussão a respeito da falta de capacidade de contemplação e de reflexão que o sistema neoliberal impõe a todos nós.
“Estamos perdendo nossa capacidade de não fazer nada. Nossa existência é completamente absorvida pela atividade e, portanto, totalmente explorada. Como só percebemos a vida em termos de desempenho, tendemos a interpretar a inatividade como um déficit.”
Em outro trecho do livro: “Nós, os ativos, mal lemos poesias. A perda da capacidade contemplativa repercute sobre nossa relação com a linguagem. Tomados pelo ruído da informação e da comunicação, afastamo-nos da poesia como contemplação da língua e começamos até mesmo a odiá-la.”
De fato, é muito difícil que alguém discorde da tese do autor. Há um grande empobrecimento da nossa potência de leitura, por exemplo, da concentração e absorção de conteúdos, da interiorização e introspecção para dentro de nós mesmos, tantos são os estímulos que nos excitam o tempo todo, em todos os lugares. Estar realmente presente em alguma relação ou ação, com inteireza, dedicação e disponibilidade, num movimento quase meditativo é tão raro quanto custoso.
As pressões permanentes, a velocidade e a urgência constante, a desconexão com a natureza e o mundo digital/informacional promove um esvaziamento do Ser, impossibilitando a experiência da contemplação, da partilha com o outro, do sentir junto. Byung-Chul-Han argumenta em favor de uma certa reconciliação do ser humano com os outros seres do planeta, os animais, as pedras, estrelas, montanhas. Somente assim poderá haver o “reino vindouro da paz”.
Esta não é uma leitura fácil, há muitos outros aspectos importantes que exigem conhecimento e pesquisa para entender o que o filósofo considera vida contemplativa e como ele opõe esse conceito ao de “vida ativa”, posicionando-se contra a tese de Hannah Arendt. Porém, para quem tiver fôlego, trata-se de uma leitura que vale por cada palavra escrita!