Após ler e discutir o polêmico livro A História da Sexualidade 1 – A Vontade de Saber, estamos iniciando a leitura da História da Sexualidade 2 – O Uso dos Prazeres.
Nas palavras de Michel Foucault: “Gostaria de mostrar, agora, de que maneira, na Antiguidade, a atividade e os prazeres sexuais foram problematizados através de práticas de si, pondo em jogo os critérios de uma estética da existência. Por que o comportamento sexual, as atividades e os prazeres a ele relacionados são objeto de uma preocupação moral?
O Uso dos Prazeres é dedicado à maneira pela qual a atividade sexual foi problematizada pelos filósofos e pelos médicos na cultura grega clássica.”
Na História da Sexualidade I – A Vontade de Saber, de 1976, Foucault apresentou seu questionamento sobre o que chamou “hipótese repressiva. Será mesmo que a tese da Psicanálise sobre a repressão da sexualidade estava correta? Ou o que ocorreu a partir do século XVIII e XIX foi o contrário, teria havido uma incitação à sexualidade, um “projeto de colocação do sexo em discurso”?
Foucault argumentou que a psiquiatria, uma das ciências em ascensão no século XIX, produziu um discurso colocando em cena a sexualidade, no intuito de controlar os corpos, normatizar os sujeitos e regular práticas e prazeres. Vale lembrar que o conceito de sexualidade, heterossexualidade e homossexualidade foi criado neste período.
Apesar de desmontar a hipótese repressiva, Foucault não a negou. Ele quis dizer que o Ocidente estava mais preocupado com a expressão do sexo do que com a repressão. E, muito pelo contrário, estimulou a curiosidade e o conhecimento sobre o assunto. A questão mais importante, segundo Foucault, foi a produção de um discurso sobre sexualidade, incitando sua expressão e posterior normatização. Foi neste contexto, portanto, que surgiu a clínica psicanalítica e a psicopatologia do sexo.
Refletir sobre sexualidade em diálogo com este grande filósofo implica conceber a ideia de que o próprio conceito de sexualidade consiste em um dispositivo. A sociedade moderna é constituída por inúmeros dispositivos, sendo que um dos mais importantes é o de sexualidade.
Dispositivo pode ser compreendido como um conjunto de técnicas, táticas, estratégias, discursos, teorias, práticas, leis, instituições que operam na sociedade, formando uma espécie de rede de poderes muito atuantes que assujeitam os indivíduos. O dispositivo de sexualidade, para Foucault, deriva do poder pastoral cristão, que foi responsável por estabelecer a relação entre sexualidade e verdade, mediada pela decifração do desejo de cada pessoa.
Pensar sobre si mesmo, encontrar a própria verdade, saber de si, afirmar-se em uma certa identidade, confessá-la ao padre, ao psicoterapeuta, ao médico ou às redes de mídia é um modo de ser específico da modernidade, sendo que nesse movimento e nessa expressão a sexualidade é constituída como a verdade principal do sujeito.
Ou seja, nas considerações de Foucault o sujeito moderno é sexual, é o sujeito da sexualidade. Nela reside a “verdade do sujeito”, imposta, subjetivada como uma das questões mais relevantes de sua identidade e modo de ser. Importante destacar que sujeito aqui significa assujeitamento aos jogos de poder saber, processo social de subjetivação inevitável ao qual todos os indivíduos estão submetidos (em sua última fase de pesquisa e produção teórica, o filósofo reconsiderou essa concepção de sujeito).
A partir do século XVIII, pontua Foucault, teriam sido criados quatro dispositivos de saber poder que configuram a sexualidade, se introduzem nas instituições e nelas se amparam e se sustentam: a histerização do corpo da mulher, a pedagogização do sexo da criança, a socialização das condutas de procriação e a psiquiatrização do prazer perverso. No caso da sexualidade infantil, surgem os “perigos do onanismo”. Quanto ao prazer perverso dos adultos, trata-se especialmente do que foi denominado homossexualismo, dentre outras condutas consideradas como perversões.
Foucault faz uma longa e complexa discussão e teorização sobre esses dispositivos que compõem a sexualidade e sobre o que chamou “analítica do poder”, no capítulo quatro da História da Sexualidade I. É preciso ler diversas vezes uma obra tão densa e de difícil compreensão, tendo em vista que ela se propõe a modificar a lógica que orienta o pensamento cartesiano predominante.
A família, as ciências médicas e psis, a escola e a igreja ocupam lugar de destaque enquanto instituições agenciadoras do dispositivo de sexualidade. As classes sociais não são esquecidas e a Psicanálise, enquanto teoria e prática da burguesia, que de certo modo teve a função de redimir o sujeito dos “impulsos perversos”, também não.
Enfim, eu penso que Foucault seja um dos principais autores do século XX para entendermos quem somos. E concordo com ele quando afirma: “Talvez o mais evidente dos problemas filosóficos seja a questão do tempo presente e daquilo que somos neste exato momento.”
Informações sobre o grupo através do whatsapp que consta no site.