Dia do Trabalho: a subjetividade neoliberal

O pensamento e a prática dos povos originários são potências a nos guiar em busca de vidas que podem ter mais sentido. Afinal, nosso modo de viver tornou-se uma catástrofe para o planeta e para a sobrevivência de nossa espécie.

Ailton Krenak, pensador, escritor e liderança indígena nos alerta insistentemente sobre isso. Quem somos e quem nos tornamos quando o tempo utilitário nos captura tanto que não conseguimos mais sentir a vida? O que fazemos com nossos corpos e nossas relações ao nos assumir como “empresários de nós mesmos”, proposta fundante e suprema do neoliberalismo?

O neoliberalismo tem sido pauta de discussão e reflexão de muitos sociólogos e filósofos contemporâneos, como os franceses Pierre Dardot e Christian Laval, o sul coreano Byung-Chul Han e os brasileiros Vladimir Safatle, Paulo Arantes, Christian Dunker e Maria Rita Kelh, estes últimos psicanalistas.

Byung-Chul Han criou o conceito de “sociedade do cansaço” em seu livro de mesmo nome, no qual explica justamente o funcionamento dessa nossa sociedade em que o bournout e a depressão são as regras, frente à exigência permanente e insuportável da alta performance, junto à competição exacerbada e à culpabilização individual dos sujeitos. No neoliberalismo é o indivíduo que tem que pagar a conta pelas condições sócio econômicas adversas. Qualquer erro ou fracasso é a ele atribuído, desconsiderando outras questões que podem determinar uma situação.

A subjetividade neoliberal é construída desde que nascemos e produz sofrimento mental intenso: não podemos errar, se erramos a culpa é absolutamente nossa, para crescer é preciso ser perfeito, comparar-se o tempo todo com quem é melhor e nunca ficar satisfeito consigo mesmo, por maior que seja o avanço conquistado. Estar sempre correndo, administrando o tempo numa loucura completa, com pouquíssimas pausas para partilhas e afetos que nos preenchem. Trata-se de uma sociedade alucinada pelo controle e pela ambição, pelo excesso de positividade (como define Byung-Chul Han).

Não é mais necessário a disciplinarização proletária ou parental, isto é, que alguém diga a outro o que fazer: nós já sabemos, já internalizamos as normas, os afetos, os valores e formamos a identidade neoliberal, porque o neoliberalismo não é apenas um sistema econômico, é muito mais a produção específica de um determinado sujeito, de uma subjetividade assujeitada a certos critérios muito sutis, quase imperceptíveis, mas que nos comandam.

O livro Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico, organizado e escrito por filósofos e psicanalistas conceituados, explicita a perversidade da produção do sujeito neoliberal, que é fabricado a partir de discursos específicos, por exemplo o do empreendedor. Convencendo trabalhadoras e trabalhadores de que há mais vantagens em ser empreendedor do que funcionário, de que a precarização é natural e inevitável, de que a culpa da precarização é do próprio trabalhador e o desemprego também é responsabilidade do sujeito que trabalha, não de outros agentes sócio econômicos, o neoliberalismo pactua com a morte e vem ampliando decididamente o abismo entre pobres e ricos. Estatísticas sobre o aumento da desigualdade desde 2015 revelam esta situação no mundo todo.

É preciso levar a sério a discussão sobre esse tema, porque é preciso criar outras formas de existência, já que tantas são as doenças resultantes do modo neoliberal de viver. Doenças físicas, mentais, suicídios, pobreza, violência. Sou testemunha de pessoas cujo padrão de vida econômica é razoavelmente alto, mas esse fato não garante bem estar, posto que a aceleração do tempo e a exigência infinita de performances cada vez maiores destroem a potência de viver, os pequenos prazeres e alegrias, o reconhecimento de si mesmo e também do outro, a importância dos encontros e afetos amorosos. Tornaram-se escravas de tarefas a serem cumpridas, de obrigações e padrões determinados, envolvendo trabalho, corpo, sexo, dinheiro, conhecimento, gestão da casa, dos filhos, do relacionamento, etc.

Não é possível deixar de fazer parte desta engrenagem avassaladora que nos constrói, mas é possível refletir sobre ela para entendê-la, criticá-la e, desta forma, muito mais coletivamente do que individualmente, criar novas trilhas de resistência.

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