Saúde mental das mulheres: questões para reflexão

Março é o mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, proporcionando maior visibilidade à luta feminista. Por isso proponho esta reflexão sobre saúde mental das mulheres: o que é saúde e doença mental, o que aprendemos sobre isso? Quando pensamos nesta questão, o que vem à nossa mente?

Pode-se afirmar que doença mental refere-se a possíveis níveis de sofrimento emocional vivido pelas pessoas, interpretados e demarcados pelos especialistas a partir dos sintomas, desde o século XIX. Consoante Michel Foucault, em seu magnífico tratado História da Loucura, é no século XIX que a psiquiatria se torna uma ciência hegemônica, estruturando um discurso norteador da visão de mundo ocidental sobre a loucura.

É no século XIX que surgem os manicômios para loucos, alguns em atividade até hoje. São espaços de confinamento específicos, nos quais as pessoas consideradas “loucas” são trancafiadas separadamente de outros grupos sociais. Antes disso não havia um lugar exclusivo para os doentes mentais.

Na definição de Foucault, a loucura se configura como uma espécie de des-razão, operando no caminho inverso da razão normativa, ou seja, para ele o louco seria o sujeito que de algum modo não se assujeita nem se submete às normas, seria a pessoa que não se deixa aprisionar pela sociedade disciplinar ou pelos controles sociais. Embora ele não tenha feito um recorte de gênero em sua teoria, é possível levá-la em conta para investigar os sofrimentos da mulheres atualmente.

Quais são os sofrimentos que as mulheres vivem hoje? Por que eles existem? O que ocorre na vida, na sociedade e nas relações que acaba por promover sofrimento e dor, fazendo com que haja um número tão grande de depressão e uso de medicamentos psicotrópicos para ansiedade, pânico, transtorno bipolar?

Da perspectiva que estou abordando, o sofrimento ocorre em função da normatização da sociedade, isto é, tem a ver com o que se espera das mulheres, com as expectativas que têm de nós e que também nós mesmas aprendemos a ter; com o que é considerado correto e moralmente digno no desempenho dos papéis sociais. O sofrimento mental não está fora das relações nem da história, bem como a saúde, o sentimento de bem-estar, tranquilidade e alegria. É o modo de viver de uma sociedade que produz dor.

Valeska Zanello, Psicóloga Doutora da UNB, vem propondo importantes discussões sobre gênero. Numa cultura binária e sexista como a nossa, ser uma pessoa significa tornar-se um homem ou uma mulher. Ao nascer, o bebê é imediatamente capturado pelo gênero, pelo processo social de generificação. Aliás, mesmo antes de nascer providencia-se o rosa ou o azul, o vestidinho ou o shorts. Os brinquedos são separados por gênero, de menina ou menino e o próprio nome da criança já define o gênero. Nossa identidade, portanto, é constituídaa a partir destes scripts, destes enquadramentos e normas de comportamento generificado, de performances exigidas distintamente para tornar-se um homem ou uma mulher.

Em toda sociedade ocidental, portanto, o gênero – esta construção social que impõe ações a serem praticadas por cada um de nós nos respectivos papéis que temos, feminino ou masculino – é um fator estruturante, de formação da identidade. Não existimos fora do gênero, sendo que tal estruturação ocorre em todos os níveis, também na nossa subjetividade, nossa forma de sentir, pensar e ser. Vamos aprendendo a ser menina ou menino na medida em que usamos determinada roupa e não outra, falamos, sentimos e nos vemos de certa maneira e não de outra. 

Segundo Valeska Zanello, as mulheres são subjetivadas pelos dispositivos amoroso e materno. Desde criança uma menina é ensinada a ser mãe com os brinquedos que ganha, em geral bonecas, joguinhos de casas e panelas. Deste modo ela aprende a gostar, a desejar ser mãe, a se identificar com a função de cuidar. E nessa pedagogia vai se tornando mulher. Todas as instituições – família, escola, igreja – ensinam e assujeitam as meninas nesse padrão. 

O que sucede às mulheres que não desejam a maternidade ou que preferem ficar solteiras? O que decorre às mulheres que não se encaixam nas normas usuais de gênero? Ou ainda, às mulheres e homens transgêneros? Como são vistos, julgados e tratados pela sociedade? 

Pois bem, a discussão sobre saúde mental das mulheres precisa levantar estes questionamentos, a fim de que haja avanços e transformações importantes, que propiciem, por conseguinte, maior bem estar e equilíbrio para todos e todas.

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