
Ana Cristina César viveu entre 1952 e 1983. Foi uma poetisa e crítica literária brasileira importante, tendo sido homenageada pela FLIP em 2016. Ana Cristina se suicidou, assim como Sylvia Plath, escritora norte americana que em 1961 escreveu A Redoma de Vidro, uma espécie de auto ficção, na qual relata seu próprio sofrimento psíquico através da personagem Esther Greenwood. Em 1963, aos 30 anos de idade, Sylvia Plath retirou-se da vida.
O tema do suicídio não se constitui, atualmente, como um tabu. Por isso a Campanha Setembro Amarelo já começou, propondo discussões e reflexões que visam a prevenção. Nesse sentido, também é importante citar as obras O Demônio do Meio Dia, de Andrew Solomon e O Ar que me Falta, de Luiz Schwarcz. Ambos são sobreviventes da depressão e narram suas vidas nestas autobiografias.
A compreensão do suicídio como um problema de saúde é recente na história ocidental. No período da Idade Média, por exemplo, o suicídio era um crime grave, punido com a execução do cadáver do suicida e com o confisco dos bens de seus familiares. Uma igreja soberana impunha crenças e valores, tais como o de que o suicida estava possuído pelo demônio por não ter se reconciliado com Deus, então se matava e desonrava a família.
No livro do historiador Georges Minois, História do Suicídio – a Sociedade Ocidental diante da Morte Voluntária, acompanhamos como o tema foi tratado desde a Antiguidade. Nesta, inclusive, o suicídio chegou a ser glorificado, considerado um ato heroico (ver Sócrates, Lucrécio, Catão e Sêneca), embora tal visão não fosse unânime.
A partir do Renascimento, especialmente com o teatro de Shakespeare (1564-1616) na Inglaterra, o suicídio tornou-se uma questão filosófica por excelência. Hamlet, notável peça trágica do autor, é o sujeito que se pergunta: “ser ou não ser?” Isto é, existir ou não existir frente às condições adversas da vida? Shakespeare revelou que o destino do ser humano situa-se entre a loucura e a lucidez, abalando a visão criminalizada do suicídio.
No século XVIII, Goethe (1749-1832), um dos mais importantes escritores da literatura alemã e do romantismo europeu, escreveu Os Sofrimentos do Jovem Werther, narrando a história de um amor impossível que resulta em suicídio. Publicado em 1774, o livro acabou sendo proibido por ter influenciado muitos jovens apaixonados, na decisão de tirar a própria vida. Amor, paixão e morte pautaram as discussões da época, sendo que o suicídio foi considerado o mal do século.
Com o avanço da medicina, as doenças mentais foram se tornando um campo exclusivo da psiquiatria. Pinel (1745-1826) e Esquirol (1772-1840), médicos franceses destacados, contribuíram com novos tratamentos para os pacientes enclausurados nos hospitais psiquiátricos, mas os métodos repressivos e a hipótese moral da loucura e do suicídio dominaram todo o período.
Em 1897, o livro de Émile Durkheim (1858-1971), que lançou novas bases para a compreensão do suicídio, foi publicado. O Suicídio – Estudo de Sociologia, fundamenta-se nas ciências sociais, em ascensão neste momento da História. Impossível não citar o nascimento da Psicanálise, através do médico e neurologista Sigmund Freud (1856-1939), que também teorizou acerca do suicídio, levando em conta a hipótese do inconsciente e das pulsões de vida e morte.
Esta retrospectiva histórica tem a função de qualificar e contextualizar minimamente o debate, apresentando elementos que visam ampliar a reflexão. Por que, hoje, o suicídio é uma das principais causas de morte em todo o mundo, crescendo continuamente entre os mais jovens? Quais os fatores que, combinados, podem levar alguém a desistir da vida? Seria interessante pensar o suicídio sob várias perspectivas, filosófica-existencial, econômica-social, mental-biológica? E quais estratégias de prevenção precisam ser criadas em tempos de pandemia?
É preciso investigar, estudar e teorizar a respeito; acolher e dialogar, para que o silêncio não seja uma opção. Durante todo o ano, não apenas em setembro!


