Relações amorosas e papéis de gênero

As relações amorosas ocupam uma dimensão fundamental na vida das pessoas. Muitas transformações estão ocorrendo, principalmente desde os anos 60, marco da segunda onda da revolução feminista. Um amplo leque de opções nas formas de relacionamento se apresenta na sociedade atual, incluindo a não monogamia, o amor livre, o trisal e muitos outros. No entanto, é ainda soberano, mesmo nas relações abertas, sejam hetero ou homossexuais, sejam cisgêneros ou transgêneros, o modelo do casal romântico, determinando expectativas que geram frustrações, decepções e sofrimento.

A obra literária Morra, Amor, de Ariana Harwicz, e sua adaptação cinematográfica homônima, dirigida por Lynne Ramsay, propõe uma reflexão acerca dos efeitos da cis hetero normatividade e do patriarcado sobre os modos de sentir, desejar e viver em um relacionamento amoroso cis heterossexual. Trata-se da história de um casal comum, que acaba de ter um filho e se muda para o pequeno povoado no qual a família do marido habita. A maternidade e a paternidade problematiza uma série de questões para este casal, que inicia uma jornada dramática de sofrimento e degradação mútua.

Se em nossa sociedade, ainda hoje, ser mulher e ser homem conforma papéis sociais de gênero que determinam comportamentos e expectativas num relacionamento amoroso, o que pode acontecer quando tal normatividade é rompida, por uma das partes ou por ambas? Em geral, de acordo com os scripts sexistas inscritos na nossa cultura, de um homem se espera que seja provedor e de uma mulher que seja cuidadora e delicada.

É possível que uma relação amorosa ainda se sustente e se desenvolva, de forma saudável, a partir desses repertórios de gênero? Não seria importante e salutar a criação de novos scripts no jogo de papéis amorosos, visando mais liberdade, simetria de poder e partilha nos afetos? Como criar novas rotas e percursos para o amor?

No mundo contemporâneo, o cenário da precarização do trabalho tenciona esse modelo tradicional, sobretudo quando o ideal masculino de sustentar sozinho uma família se torna materialmente impossível. Diante da insuficiência da renda masculina, somada à exigência da inserção das mulheres no mercado de trabalho sem políticas públicas adequadas para a socialização do cuidado, as relações amorosas e os papéis de gênero podem se transformar em um campo de batalha permanente.

Tanto a literatura quanto o cinema denunciam esse estado caótico de viver, se relacionar e estar no mundo. Morra, Amor, embora seja uma obra difícil e densa, de grande impacto emocional, nos oferta a possibilidade de questionar e rever nossos próprios relacionamentos, a fim de transformá-los, na medida do possível.

Deixe um comentário