Para 2024

Minha reflexão neste fim de ano é um tanto utópica, eu assumo. No atual cenário caótico que vivemos, com guerras, genocídios, emergência climática, propagação de ódio nas redes sociais, crise política/econômica, é frequente estarmos deprimidas ou ansiosas. A tristeza e o desânimo podem ser sintomas da realidade; o estado de urgência e pânico, até mesmo o delírio também são sintomas de uma sociedade que vem fracassando no que diz respeito à solidariedade e à construção de uma ética inclusiva, dialógica e respeitosa com as diferenças.

Quais pessoas não se deixam afetar por tudo isso? É possível manter-se alheia? Mesmo aquelas que assim se proclamam – “não é comigo, não tenho nada a ver com isso, minha vida é só diversão” – são afetadas de alguma forma, ainda que inconscientemente, pois ninguém consegue viver tão isolado.

O objetivo deste texto não é traçar a história de como chegamos a tal estado de mundo, de relações, de planeta, de segmentação social e de uma certa anomia. Também não é propor algo redentor que venha nos salvar, seja individualmente ou coletivamente. Talvez este escrito seja um modo singular de partilha, algo que escolho realizar porque me amplia e me oferece alguma reparação.

 

Será impossível criar uma coexistência mais pacífica entre todos nós? Parece que sim, tendo em vista os conflitos mundiais e pessoais que testemunhamos, muitos dos quais inclusive participamos. E sonhar com essa possibilidade, se assim desejarmos, também é impossível?

Obviamente, sabemos, não são todas as pessoas que desejam a criação de uma ética que coloque em prática valores de respeito às diferenças, reciprocidade uns com os outros, empatia, cuidado e igualdade de direitos. Há muitos grupos e instituições fomentando o contrário, numa luta insana por poder, dinheiro, destruição e sucesso a qualquer custo.

Exatamente por isso é que é necessário reaprender a sonhar, criando a possibilidade, primeiramente no imaginário, de que há outras formas de vida. Sonhar é resistir à barbárie, é imaginar um outro mundo possível, é cultivar uma disposição especial para a experiência do viver.

O sonho ao qual me refiro relaciona-se ao coletivo, à perspectiva da coexistência humana na diversidade de conceitos, ideologias, afetos, etnias, gêneros, sexualidades, culturas e religiões, sem que uma tenha que devastar a outra.

COEXISTÊNCIA – EXISTIR JUNTO.

 

Ilusão, utopia, inocência, estupidez, tolice? Tudo isso, sem dúvida alguma! Como um exercício de imaginação que carrega a potência da criação em meio árido e sórdido, tal como esse ao qual sobrevivemos diariamente.

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