Infâncias dilaceradas

Já houve um tempo em que eu pensava a infância na perspectiva da poesia e adorava citar os livros do filósofo da educação Jorge Larrosa, encantador! Mas correm dias tristes, atormentando a mim e a tantas outras e outros, clamando por ácidas poesias, ainda mais do que dantes!

Não sou capaz, neste instante, de escrever sobre as violências que destroem cotidianamente a vida das crianças e adolescentes. Sei que nunca houve infância, mas INFÂNCIAS, assim no plural, e que há séculos, dependendo do lugar no qual um ser humano nasce, em que classe social, qual a raça ou etnia, qual o gênero e a situação familiar, o direito de ser criança inexiste. Fome, desnutrição, abandono, guerra, abuso, estupro, escravização, assassinato e suicídio sempre foram pautas na discussão sobre infâncias e adolescências. Entretanto agora, no Brasil, começamos a debater também porque o ambiente da educação se tornou alvo de criminosos, assassinos monstruosos, mentes insanas a serviço do ódio.

Tenho muita dificuldade para entender o que está ocorrendo, ao mesmo tempo em que sou testemunha, enquanto psicoterapeuta de crianças e adolescentes, de situações, relatos e queixas frequentes envolvendo a convivência no espaço escolar. Para abordar o tema de forma ética e delicada, prefiro tecer algumas considerações sobre o filme Close, um dos mais belos filmes que tive o privilégio de assistir no cinema recentemente.

O filme belga concorreu ao Oscar 2023 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Não faturou o prêmio, mas vem sensibilizando e mobilizando plateias por todo o mundo. Dirigido por Lukas Dhont – que também realizou Girl (2018) -, esta emocionante obra cinematográfica, ao criar uma estética ímpar na fotografia, na montagem, no jogo de cena dos corpos e rostos, narra a história de dois grandes amigos adentrando o período da adolescência, em uma escola tão civilizada quanto intolerante e hostil às diferenças.

Não se trata, neste caso, daquela crueldade aberta e declarada; não é desta violência que os meninos são vítimas. Também não se trata de adultos ou professores autocráticos que reprimem as individualidades. Com exceção de algumas cenas em que assistimos os colegas criticarem os dois amigos por serem muito próximos, chamando-os de “casal”, a humilhação é algo sutil, conquanto permanente e dilacerante para identidades que começam a fluir em um percurso de transformação. Interrompido.

E aqui também interrompo minha explanação sobre o filme, sob pena de revelar seu conteúdo por inteiro, prejudicando a experiência de quem deseja assisti-lo. Não recomendo que pessoas muito jovens o assistam, nem adultos em depressão. Porém, creio que educadores, educadoras, mães, pais, profissionais de saúde devem se disponibilizar à “escuta” que esse filme proporciona, quem sabe em grupos de discussão cujo objetivo seja refletir sobre as relações de poder no campo da educação, sobre os valores subjetivados que norteiam as práticas educacionais e a sociedade em geral, principalmente em relação ao gênero e à sexualidade.

Muitas são as perguntas suscitadas por Close, das quais não podemos nos omitir: haveria um tipo de masculinidade, ainda em perfeito funcionamento nas sociedades contemporâneas, que não apenas reprime homens e mulheres simbolicamente, mas que também aniquila suas vidas fisicamente? Qual a responsabilidade de cada um de nós, adultos que lidam com crianças e adolescentes, frente a isso? Quais as dificuldades que encontramos para pautar discussão tão importante? Por que é tão complicado imaginar e criar uma sociedade realmente mais livre, na qual a diversidade entre as pessoas seja um valor positivo e nobre?

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