Maternidade: uma reflexão polêmica

 

O livro Contra os Filhos, da escritora chilena Lina Meruane, é uma obra polêmica, a provocar intensa reflexão sobre o tema da maternidade na sociedade em que vivemos.

Lina não poupa ninguém em sua crítica contundente aos discursos e modelos de família, infância e maternagem que foram sendo criados ao longo do século XX, nem mesmo as mulheres e os movimentos feministas. Não é preciso, no entanto, concordar com todos os seus argumentos para entender a relevância do livro.

“Ter filhos não é para todas as mulheres”, disse minha mãe contra o proselitismo materno de sua época e da minha. A ela dedico, com amor de filha, este escrito.”

A visão da maternidade como instinto já foi contestada por muitas outras autoras ( O Mito do Amor Materno, Elisabeth Badinter). Recentemente surgiu ainda o movimento Mães Arrependidas, propondo essa importante discussão. Mas Lina vai além e apresenta um histórico dos diversos feminismos que, segundo ela, avançam e retrocedem na questão da maternidade:

“Prestem atenção: a cada êxito feminista se seguiu um retrocesso, a cada golpe feminino um contra-golpe social destinado a domar os impulsos centrífugos da liberação.”  

Em sua exposição teórica, Lina aponta as muitas formas pelas quais as mulheres são persuadidas a cumprir o papel social de mãe, incluindo pressões de determinados grupos que se posicionam justamente pela defesa dos direitos das mulheres.

Para a autora, até mesmo movimentos feministas acabam impondo exigências demasiadas às mães, na medida em que propagam certo ideal de maternidade perfeita, como por exemplo amamentar por longo tempo, fazer o parto sem anestesia, usar fralda de tecido, cumprir tarefas médicas e educacionais ininterruptamente, consumir apenas alimentos orgânicos, etc. Aquilo que parece libertador, revolucionário e progressista revela-se, no dia-a-dia, uma espécie de clausura, a mesma que as mulheres quase sempre viveram na história da humanidade ocidental. Há um retorno para casa, para os filhos e para o ambiente doméstico, sob uma nova roupagem, agora com o aumento dos requisitos da “boa mãe.”

As contradições acerca destes discursos são elucidadas por Lina, revelando que, na verdade, o que ocorre é a manutenção da obrigação de cumprir as funções do cuidado, na maternidade e no âmbito familiar, em geral sem apoio social, posto que não há mudanças significativas no sistema capitalista vigente, que garantam novas condições de vida. Como ser essa mãe mais que suficientemente boa, a “mãe perfeita”, em um mundo ultra consumista, perverso, desigual economicamente, sem paridade de gênero, escravocrata, cujo projeto mais proeminente é a retirada de direitos trabalhistas conquistados com luta em séculos passados? Não é exigência demasiada para as mães, que se transforma em culpa e julgamento moral?

Pois bem, estas são questões complexas da contemporaneidade, que solicitam discussão e reflexão permanentes, tendo em vista que não há respostas fechadas ou definitivas para elas.

Junto a tais questões Lina também defende a concepção de que os filhos foram ocupando um lugar muito privilegiado na família moderna, criando o que ela denomina “império dos filhos.” Será isso mesmo? E qual seria a função desses imperadores na sociedade neoliberal que construímos? Proporcionar a realização de um “projeto” que abarca certa “missão moral” familiar? Eis a tese da autora.

Para conferi-la, concordar, discordar e discutir, vale a pena ler o livro!

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