A tristeza insana insiste resiste e obscena nua se encarna no corpo.
Não diz palavra, se faz em pele em ossos músculos lábios
gritando a angústia da morte iminente.
Quantos são os lutos passíveis de dignidade a um ser humano?
Quantos são os lutos possíveis de consentimento a uma mãe?
Não há História sem barbárie, afirmam os filósofos.
Tampouco há existência sem dor.
*Escrita de minha autoria, em homenagem a todos os mortos e enlutados pela pandemia de Covid.

Chimamanda Ngozi Adichie, escritora nigeriana reconhecida, narra em Notas Sobre o Luto, o sofrimento com a morte de seu querido pai em 2020, a quem dedica o livro. A surpresa, o susto, a falta, a incompreensão, o vazio que marca uma perda amada, que desestrutura e muda radicalmente a vida de quem sobrevive.
“Minha cautela em relação aos superlativos é para sempre eliminada: 10 de junho de 2020 foi o pior dia da minha vida. Existe sim o pior dia da vida de uma pessoa, e por favor, querido Universo, eu nunca quero que nada o supere.”
Em outro trecho do livro: “Nunca mais veio para ficar. Nunca mais parece injusto e punitivo. Eu vou passar o resto da minha vida com as mãos estendidas tentando alcançar coisas que não estão mais ali.”
“Estou escrevendo sobre o meu pai no passado, e não consigo acreditar que estou escrevendo sobre o meu pai no passado.”
Após alguns meses, no início de 2021, Chimamanda também perdeu sua mãe. E como milhões de famílias em todo o globo terrestre, vive um processo de luto. Muitos de nós talvez esteja de luto com ela, independente de ter tido algum parente ou amigo que morreu nestes dois últimos anos. A pandemia nos obrigou a olhar de frente para a morte e para a barbárie das políticas de saúde que não preservam a vida e que, muito pelo contrário, levam à óbito cidadãos e cidadãs. Assim foi no Brasil, lamentavelmente. Muitas pessoas não teriam morrido de covid se tivéssemos governantes comprometidos com a saúde pública.
Porém, aqui estamos, mais uma vez próximos a iniciar um novo ano do século XXI. Não será como antes, há muitos lutos a serem feitos e muitas lutas a serem realizadas. Períodos traumáticos exigem que enfrentemos o pior e o melhor, de nós e dos outros. É preciso que aprendamos a dialogar tanto com nossa própria dor quanto com a dor de quem está à nossa volta. Negar os sentimentos ou entregar-se à euforia não permite nenhuma forma de criação.
Como em outros passados da humanidade, nas guerras ou ditaduras sangrentas, é urgente preservarmos a memória dos mortos, narrarmos suas histórias; relatar o horror, o descaso genocida que a vida de tantos assassinou. Para que então sigamos com Zeca Baleiro na belíssima canção O Tempo não Espera. Um pequeno trecho:
“Vamos dançar sobre as cinzas e os escombros desse mundo
Quero mergulhar no fundo e voltar à respirar
Replantar as flores esmagadas na avenida
Ver a vida dizendo: o tempo não espera.”
https://www.youtube.com/watch?v=jHBS7DyKkSk