Em um ano que vai se findando com tanta dor e tragédia, gostaria de reiterar algumas possibilidades importantes na lida com o sofrimento psicossocial relacionado ao luto, às perdas e às angústias que a pandemia vem nos causando.
Enquanto coordenadora do grupo de trabalho de artes na Rede de Apoio às vítimas da Covid-19, pesquisei autores, poetas, escritores e obras que, de algum modo, contribuem com essa reflexão.
Não há receita para a dor, mas há caminhos. Um desses caminhos, segundo o poeta, professor e Dr. em Filosofia Tarso de Melo, que tem vários livros e poemas publicados, é a poesia.

“Vivemos tempos doentes, e a poesia, que sempre age contra os muros que cercam nossa percepção, agora parece ainda mais forte quando a vida entre quatro paredes é o limite físico do nosso mundo e quando, entre elas, temos que lidar com tantas aflições.” – Revista Cult, Ed.258, Junho 2020.
Tarso de Melo advoga que é justamente nos momentos de maior dor e desespero que a poesia assume papel importante, pois alimenta a mente saudável, dentro do possível, em situações de total aflição. A arte seria uma espécie de “respiro”. Basta observar que, durante a quarentena, as pessoas se alimentaram de lives com muita música nas redes.
“Versos vêm de condições adversas (…) E podem ir ao encontro de outras, tornando-se menos adversas. Por isso, neste momento, creio que compartilhar poesia é ainda urgente e curativo: pelo que dizem os poemas, pelo que diz o gesto de compartilhar, porque cada poema leva em seus versos a voz de alguém – de quem o escreveu, de quem o escolheu – para além de quaisquer limites”, continua Tarso de Melo na matéria da Revista Cult. Para ele o poema é uma ponte que pode comunicar um “abraço na distância.”
Este é o convite, portanto! Ler, escrever e partilhar o sentimento e o pensamento, da maneira que for possível. Não é preciso ser poeta! Através de jogos com palavras, de cartas ou frases que façam sentido, podemos narrar o que não é concebível calar.
Um dos poetas mais famosos da literatura brasileira no que diz respeito ao tema da morte, da doença e da solidão foi Manuel Bandeira (1886-1968), que em 1917 publicou seu primeiro livro, A Cinza das Horas, já sofrendo com a tuberculose. Seu poema Desencanto é bastante reconhecido. Transcrevo-o abaixo para que possamos sentir a potência e a força da poesia:

Eu faço versos como quem chora
De desalento. . . de desencanto. . .
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente. . .
Tristeza esparsa… remorso vão…
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
– Eu faço versos como quem morre.
Muitos são os escritores contemporâneos a criar poemas que nos tocam, incluindo os povos nativos. No site http://www.p-o-e-s-i-a.org.br encontramos a publicação de uma revista chamada Poesia Indígena Hoje, bela e instigante. Abaixo, o poema Suspiro de Gaia, de Ailton Krenak.
Está difícil dormir com tanto fantasma ao redor
Corpos abandonados em pavilhões
Espíritos de luz projetam raios paralisantes.
A Terra balança levemente os cabelos
devolve nos cosmos fagulhas de estrelas.
Que tal criar sua própria expressão também?