Pandemia à brasileira: necropolítica e sacrifício

É com muito perplexidade que acompanho este momento de flexibilização da quarentena no Brasil, conforme decisão das autoridades governamentais.

Compreendo que a “economia não pode parar”, como muitos afirmam. Compreendo que os cidadãos mais pobres, principalmente, saiam de casa porque precisam de dinheiro até para comer. Compreendo que não há estabilidade financeira nem política. Compreendo todos os argumentos a favor do funcionamento “normal” da sociedade, já que a cultura e a educação não ensinou ninguém a pensar no que pode ser feito em situações de emergência como a que vivemos.

Em situações de emergência é preciso renegociar tudo: a vida em geral, os acordos econômicos e políticos, as relações entre patrões e empregados, os vínculos familiares, o papel do Estado, da igreja e da ciência.

É sintomático que a maior parte dos cidadãos não consigam sequer refletir sobre a função do Estado numa pandemia. Parece difícil entender que é o Estado que tem que garantir para as pessoas a tranquilidade de ficar em casa, tem que dar condições para que isso ocorra, protegendo a todos da fome, da miséria e do desemprego em decorrência de uma crise com pouquíssimos precedentes.

Em vários países da Europa a condução das políticas econômicas mudou, ampliando recursos públicos para as famílias e as pessoas desempregadas, durante e após a emergência. O sistema de bem estar social, que vem sendo desmontado há décadas, voltou a atuar. Já se sabe que, sem ele, não haverá Economia possível em país algum.

Ao contrário disso, o que acompanhamos no Brasil é a proposta de sacrificar o povo, quem sabe causando um verdadeiro massacre. A concepção que fundamenta essa política de emergência – uma necropolítica, ou seja, política de morte – tem a ver com o que a filósofa Judith Butler denomina “populações perdíveis, sacrificadas”, às quais se pode matar ou deixar morrer. No momento, somos todos nós! Ou pelo menos a maior parte de nós.

Não existe mais ninguém que não tenha uma história de Covid para contar. Os relatos pipocam em rodas diversas: um familiar, um amigo, um colega de trabalho; morreu ou está se recuperando. Como estaremos daqui a uma semana? Quantas vidas poderiam ser poupadas se a escolha não fosse a do sacrifício, mas sim a da vida? Não temos direito à vida? Este não é um dos artigos da Constituição, direito à vida e à saúde?

Já há precedentes sendo abertos em algumas instâncias jurídicas para que diversas autoridades sejam julgadas por crime contra a humanidade. O jornal El País de 3/06/2020 trouxe um texto denominado “Descaso do Governo com o coronavírus abre caminho para levar agentes públicos aos tribunais”, em que discute essa questão. O mais impressionante, no entanto, é observar a resignação de um grande número de brasileiros.

Talvez por falta de opção ou de conhecimento, talvez por crença religiosa ou fanatismo político, talvez por ódio ou perversidade, a aceitação do “destino da morte”, do “não tem o que fazer”, “nem adianta usar máscara”, “homem que é homem não pega”, e tantas outras barbáries que escutamos, o coronavírus vai fazer muito mais vítimas do que faria se a prioridade fosse a potência da vida, “eu desejo e posso viver uma vida que vale a pena”, “tem jeito de impedir a circulação do vírus se ficarmos em casa com algumas garantias do Estado”, “não é preciso morrer por sacrifício nenhum”.

Nesse desabafo ansioso e triste ao mesmo tempo, eu não poderia deixar de lembrar da noção de “cuidado de si” dos gregos, que Foucault tanto discutiu em suas aulas e textos no final da vida. O livro A Hermenêutica do Sujeito é basicamente sobre isso. Quão longe estamos da civilização que fundou o Ocidente, quão distante! E quanta vergonha nos causaria se com ela nos encontrássemos hoje.

Não estou sendo saudosista, apenas gostaria que tivéssemos o mínimo de cuidado uns com os outros e conosco também. Gostaria de viver em um país no qual os governantes prezassem a vida da população e não as abandonasse, principalmente em tempos de pandemia. Um país em que viver não solicitasse o sacrifício pela própria morte. Enfim, um lugar digno, decente, com respeito e amor pela vida.

Este post tem 6 comentários

  1. Marcia

    Muito bom, Andrea.
    Realmente este ceder à lógica da morte é muito perverso porque nos tira não a possibilidade, mas a crença na necessidade de lutar pela vida.

    1. Andrea R Martins Correa

      Pois é, a tragédia está justamente em não acreditar que é possível viver com dignidade e ter direitos mínimos garantidos. E essa crença foi forjada, não é “natural”.

  2. Muito bom Andrea ! Triste realidade a nossa!
    O governo federal coloca “Deus acima de tudo e de todos”, pois o Deus dele
    não é o do povo que tem um Deus que chora as suas dores.
    O Cristo que está nas covas dos mortos ressuscitando-os.
    O povo dado em sacrifício será lembrado por nós e as histórias passadas para as próximas gerações.
    Não ficará impune!

    1. Andrea R Martins Correa

      Sim. Vamos fazer valer ao menos a Memória.

  3. Muito bom Andrea ! Triste realidade a nossa!
    O governo federal coloca “Deus acima de tudo e de todos”, pois o Deus dele
    não é o do povo que tem um Deus que chora as suas dores.
    O Cristo que está nas covas dos mortos ressuscitando-os.
    O povo dado em sacrifício será lembrado por nós e as histórias passadas para as próximas gerações.
    Não ficará impune!

  4. Cida Gurgel

    Muito triste tudo isto em nome de um ideal único.
    Tudo baseado no Deus dinheiro!
    Nada para os pobres que estão sendo sacrificados.

Deixe um comentário